O Autor

Stephen Edwin King nasceu no dia 21 de setembro de 1947 (um domingo), na cidade americana de Portland, Maine. Stephen foi o segundo filho (e único biológico) de Donald Spansky e Nellie Ruth Pillsbury, fato que aconteceu contra todas as expectativas, visto que Ruth fora informada de que nunca poderia gerar filhos. Stephen cresceu com o irmão adotivo David e os pais até os dois anos.

Em uma certa noite de 1949, uma nova surpresa impactou a vida dos King. Com a desculpa de que iria comprar um maço de cigarros, Donald saiu de casa para nunca mais voltar, deixando uma humilde Ruth para criar sozinha os dois meninos. Durante os anos que se passaram, a família King se mudou de estado para estado conforme a necessidade ditava; eles passaram por Indiana, Winsconsin, Connecticut, e enfim voltaram ao Maine em 1958, onde seguiram batalhando por uma vida melhor.

Foi no ano seguinte que o pequeno Stevie descobriu o dom dele. Enquanto visitava a casa da tia, King descobriu uma caixa cheia de revistas sobre histórias de terror e ficção-científica. Foi amor à primeira vista. Ele ficou viciado nos gibis de terror da EC Comics (em especial, “Contos da Cripta”). Inspirado por autores como H.P. Lovecraft, Edgar Allan Poe e Jack Finney, o jovem King começou a exercitar o talento. À princípio, devido à falta de experiência do menino, as histórias não eram muito boas ou detalhadas; entretanto, já apresentavam um charme impressionante para alguém da idade dele.

Stephen também praticava a escrita desenvolvendo críticas de programas de TV e outros tipos de artigos para o jornal caseiro do irmão, o “Dave’s Rag”, impresso em um mimeógrafo (comprado pelo próprio David), e vendido por pouco menos do que cinco centavos. Não levou muito tempo para que Stevie tivesse a ideia de escrever contos e vendê-los (trinta centavos cada); ele começou a distribuição na escola, e começava a fazer um pequeno sucesso quando os professores descobriram e o proibiram de continuar.

Em 1962, época em que Stephen King e o melhor amigo dele no colégio, Chris Chesley, estudavam na Lisbon High School, o rapaz escreveu o primeiro livro dele. Intitulado “People, Places & Things – Volume I”, o projeto reunia diferentes contos curtíssimos escritos pelos dois amigos. Os contos de King se chamavam “Hotel at the End of the Road” (O Hotel no Fim da Estrada); “I’ve Got to Get Away!” (Eu Tenho Que Escapar!”); “The Dimension Warp” (A Urdidura da Dimensão); “The Thing at the Bottom of the Well” (A Coisa no Fundo do Poço); “The Stranger” (O Estranho); “I’m Falling” (Eu Estou Caindo); “The Cursed Expedition” (A Expedição Amaldiçoada); e “The Other Side of the Fog” (O Outro Lado da Névoa). Um ano depois, a Triad and Gaslight Books (que, na verdade, era uma editora fictícia criada por Stephen, Chris e Dave) publicou uma história maior dividida em duas partes chamada “The Star Invaders” (Os Invasores do Espaço), que possuía mais de 3 mil palavras.

O primeiro conto amador dele se chamou “In a Half-World of Terror” (a história possuía mais de 6 mil palavras), mais tarde rebatizado para “I Was a Teenage Grave-Robber”. Ele foi publicado em uma fanzine de terror criada por Mike Garrett, de Birmingham, Alabama. Stevie continuou a mandar contos para diferentes revistas, na esperança de ganhar fama e dinheiro, sendo rejeitado várias vezes. Em 1966, ele se formou na Lisbon High School, não tendo sido um aluno exemplar, mas tampouco péssimo. Mais tarde, naquele verão, King começou a escrever o esboço de um romance que, a princípio, se chamaria “Getting it On” (uma gíria que remete a ação de ter uma ereção), cuja premissa girava em torno de um grupo de alunos que tomaria o controle de uma sala de aula e tentaria fugir da polícia; tal livro só seria publicado 11 anos depois, após uma série de pesadas modificações, sob o nome de Fúria (Rage) e assinado por um certo Richard Bachman.

Foi apenas em 1967, já na faculdade (Universidade do Maine) onde cursava Inglês, que King publicou o primeiro conto de modo profissional. “The Glass Floor” (O Chão de Vidro) foi publicado na Startling Mystery Stories, o que lhe rendeu a bagatela de 35 dólares. Na universidade, King escrevia uma coluna estudantil, o “Steve King’s Garbage Truck” (Caminhão de Lixo do Steve King), no Maine Campus, jornal em circulação da faculdade. Foi também nessa época que Stephen conheceu, na biblioteca da faculdade, o grande amor da vida dele: Tabitha Jane-Frances Spruce.

Stephen e Tabitha seguiram namorando enquanto ambos terminavam a faculdade. Em 1970, Steve conseguiu o bacharelado e um certificado que lhe permitia lecionar em colégios. Foi mais ou menos nesta época que a maior criação literária dele nasceu: o Pistoleiro. Utilizando papel verde encontrado em uma biblioteca, King começou a escrever as primeiras linhas da saga d’A Torre Negra. O rapaz sentiu grande inspiração após ler o poema de Robert Browning, “Childe Roland to the Dark Tower Came” (Childe Roland à Torre Negra Chegou), mas, devido à precária situação financeira dele e ao longo caminho que a jornada de Roland Deschain indicava que teria, King teve de pôr a ideia de lado. Ele começou a trabalhar como frentista, ganhando 1 dólar e 25 centavos por hora. Foi neste mesmo ano que o primeiro dos três filhos dele nasceu: Naomi Rachel King.

Steve continuou a mandar histórias para revistas masculinas, nunca desistindo de alavancar a vida; o alvo principal do rapaz era a revista Cavalier. Então, em 2 de janeiro de 1971, Stephen se casou com Tabitha. Entretanto, como não podia confiar apenas na incerta carreira de escritor, e agora que já estava casado e com uma filha para sustentar, King teve de continuar com bicos, sobrevivendo até que alguém conseguisse enxergar o talento dele. Ele trabalhou em uma lavanderia industrial e depois foi um zelador. Por fim, no outono daquele ano, conseguiu um trabalho mais estável como professor de Inglês na Hampdem Academy, ganhando um salário de 6 mil e 400 dólares por ano, isto é, pouco mais de 530 dólares por mês. Não muito depois, King acabou desenvolvendo um problema que o assombraria por quase duas décadas: o vício pelo álcool. Nesta época, Steve vivia com a família em um trailer, e logo tiveram que se mudar para a cidade de Hermon, à oeste de Bangor. Ainda assim, sempre que tinha uma folga, Stephen King criava.

E no ano seguinte, ele criou algo mais: Joseph Hillstrom King e Carrie White… só que Carrie quase teve uma vida curta. King começou a bolar um conto sobre uma jovem que sofria bullying e descobria ter poderes telecinéticos, mas, após completar algumas páginas, decidiu que não valia a pena continuar escrevendo por não entender quase nada do mundo feminino, e jogou a história no lixo. Eis que Tabitha King recolocou o destino dos King nos eixos apanhando os papéis da lixeira. Ela pediu ao marido que continuasse a escrever a história. Encorajado pela companheira, King o fez.

Terminado o manuscrito (que havia se tornado relativamente grande, de modo que agora já não era mais um conto, mas um romance), King tentou vender Carrie, a Estranha (Carrie). Em janeiro de 1973, Stephen King entregou-o à editora Doubleday; dois meses depois, a Doubleday comprou o romance, pagando aos King US$ 2.500 para começar. No dia 12 de maio, a editora vendeu os direitos de brochura para a New American Library por US$ 400 mil. Por força de contrato, King recebeu a metade. As dificuldades financeiras cessaram e, para comemorar, King comprou um secador de cabelo para a esposa. Aliviado com a venda de Carrie, King pediu demissão do emprego como professor, e passou a dedicar tempo integral à escrita. Porém, pouco tempo após a primeira grande vitória profissional de Stephen, o destino lhe tirou algo muito querido.

Carrie, a Estranha, foi publicado no dia 5 de abril de 1974, mas Ruth Pillsbury King não viveu para ver isto acontecer. Aos 59 anos, a matriarca da família King faleceu de câncer de pulmão. No leito, Ruth ouviu Carrie, a Estranha (manuscrito) narrado pela tia Ethelyn (a dona da coleção de gibis de terror que encantara o pequeno Stevie), e pouco tempo depois, ela partiu, mas não sem antes ter a felicidade de saber que o destino do filho já estava bem encaminhado. Arrasado pela morte da mãe, King se rendeu de vez ao álcool. No funeral de Ruth, ele fez um emocionado discurso de despedida bêbado.

Apesar da tragédia, a vida de King tendia a melhorar. No ano seguinte, em 1975, ele publicou ‘Salem (‘Salem’s Lot), rendendo-lhe o status de “escritor de horror”, o que não o deixou nem um pouco incomodado. A venda subsequente dos direitos de reimpressões lhe renderam mais US$ 250 mil. Se a fama delee ainda não estava solidificada, em 1977 não teve mais jeito: com a publicação de O Iluminado (The Shining), história inspirada em um fim de semana que passou com a esposa no Stanley Hotel, em Estes Park (um hotel com fama de mal-assombrado), ele recebeu a alcunha definitiva. Nesse mesmo ano, Stephen recebeu a última bênção dele como pai: o nascimento de Owen Philip King, em 21 de fevereiro.

Owen e O Iluminado não foram as únicas criações de King em 1977. Utilizando o antigo manuscrito de “Getting it On”, Stephen King resolveu testar a escrita. O plano seria lançar o romance, agora rebatizado de “Rage”, com um pseudônimo para ver se venderia tanto quanto os outros romances, ou se as vendagens atuais eram apenas influenciadas pela fama crescente do jovem escritor. King prestou tributo a Donald E. Westlake, pegando a primeira parte do pseudônimo do autor, Richard Stark (o Stark seria aproveitado mais tarde, como sobrenome do vilão de A Metade Sombria), e a primeira parte do nome da banda Bachman-Turner Overdrive, para criar aquela que seria a sombra dele por sete anos: Richard Bachman.

Os anos se passaram, e o talento de King começou a ser reconhecido pelo mundo, sobretudo após grandes diretores como Brian De Palma, Stanley Kubrick e Rob Reiner adaptarem as obras dele para o cinema. A década de 1980 veio e se foi com a criação e publicação de ChristineO Talismã (em parceria com o amigo Peter Straub) e um dos maiores sucessos da carreira do autor: IT: A Coisa. Apesar de ter sido no começo desta década que foi descoberto que Richard Bachman era, de fato, Stephen King (o que o obrigou a matar Bachman), as vitórias continuaram, não só no mundo literário (em 1989, King assinou um acordo de US$ 35 milhões com a Viking, então editora dele, pelo lançamento de quatro livros), como também no pessoal.

Após uma década com Stephen afundado no álcool e nas drogas pesadas, a família de King (leia-se Tabitha) resolveu dar um basta na autodestruição do escritor. Pouco depois da publicação de Os Estranhos (livro que reflete bem a antiga situação de King em um dos personagens principais), Tabitha reuniu todo o lixo proveniente de bebidas e drogas, e jogou tudo aos pés dele, declarando que, ou Stephen procurava se recuperar, ou ele teria que procurar outro rumo. Então, antes que a década de 1980 acabasse, Stephen King procurou ajuda para ficar limpo… e conseguiu. Até hoje, Stephen King permanece sóbrio de quaisquer que tenham sido os vícios dele.

A década de 1990 foi quase tranquila para King. Durante esses anos, ele publicou, dentre outros livros, Eclipse Total, Rose Madder, Desespero e Saco de Ossos (pela Simon & Schuster). Mas um novo evento testou a resiliência do autor. Uma vez mais, King recebeu um forte golpe… só que, desta vez, literalmente. O dia era 19 de junho de 1999; a hora era 16h30 e o local era a Rota 5 em Lovell, Maine. Enquanto fazia uma caminhada vespertina, Stephen foi atropelado por Bryan Smith, que perdeu o controle da minivan que dirigia quando foi distraído pelo cão dele, que estava no banco traseiro.

A pancada foi tão forte, que King aterrissou a cinco metros do veículo numa depressão fora da estrada. Ainda consciente, King conseguiu dar o número do telefone da família e foi levado ao Northern Cumberland Hospital, em Bridgton, sendo, depois, levado de helicóptero ao Central Maine Medical Center, em Lewiston. King sofreu múltiplas fraturas na perna direita, teve o quadril quebrado e o pulmão atingido. Os médicos chegaram a considerar amputar a perna direita de Steve, tamanho o estrago, mas, depois de cinco operações em dez dias, e muita terapia física, King salvou a perna… mas as dores continuaram por meses.

Temendo que a van que o atropelara pudesse ser vendida em sites como eBay, King a comprou por US$ 1.500 dólares na intenção de destruí-la com uma marreta assim que ficasse bom. Em 2002, devido às dores e lesões deixadas pelo acidente, o autor chegou a anunciar a aposentadoria. Para o alívio dos fãs, ele acabou mudando de ideia; completando a saga A Torre Negra e continuando na ativa até hoje. Em 2003, King recebeu o The National Book Foundation Medal for Distinguished Contribution to American Letters.

Até o momento, King publicou exatos 54 romances (contando os oito livros da saga A Torre Negra; e sem contar o livro-roteiro Storm of the Century ou o romance inacabado The Plant), 11 antologias de contos e noveletas (sem contar coletâneas com histórias repetidas, como Stephen King Goes to the Movies ou Six Stories), oito livros sob o pseudônimo Richard Bachman (incluindo Os Livros de Bachman), e mais oito livros na categoria de não-ficção, totalizando 81 publicações. Além disto, as obras de King já foram adaptadas para as mais diversas mídias, como filmes, histórias em quadrinhos, seriados e peças de teatro.

King se tornou um ícone da cultura pop, reconhecido por várias gerações e nações, sendo admirado, imitado e, até mesmo, parodiado. Por incrível que pareça, após quase 50 anos de carreira, Stephen King não mostra qualquer sinal de que está para parar. Em 2021, ele publicou os romances Depois, terceira colaboração com a editora Hard Case Crime, e Billy Summers, com um assassino de aluguel como protagonista.

Stephen King atualmente vive com a esposa Tabitha e os três filhos em Bangor, Maine.