Regiane Winarski

Entrevista originalmente publicada no dia 07/02/2011.

Apresentação: Regiane Winarski, ou simplesmente Nane, trabalha como tradutora e revisora de livros. Em especial, se destaca seu trabalho revisando e aperfeiçoando os textos dos livros já lançados de Stephen King pela Objetiva, o que seria o famoso “copidesque”. Como vocês verão a seguir, a Nane é uma grande fã de Stephen King, o que é um grande diferencial na hora de realizar um trabalho em cima de uma obra dele, reunindo não só seu talento como tradutora e manipuladora de textos, como também seu fascínio pela obra do Mestre do Horror Moderno.

Anos depois, ela viria a se firmar como tradutora das obras de King (posto que ocupa até hoje). Desde então, ela traduziu Joyland; Mr. Mercedes; Achados e Perdidos; Último Turno; O Bazar dos Sonhos Ruins; A Pequena Caixa de Gwendy; Belas Adormecidas; Outsider; Ascensão; O Instituto; Com Sangue e Depois. Ela se tornou a profissional que mais traduziu livros de King no Brasil.

01- Conte como foi sua ascensão no mundo das traduções, do começo à época atual.

Sempre amei livros, desde criança. Quando terminei a escola, segui outro caminho, fui estudar Engenharia Química. Desisti no meio e passei no vestibular para Comunicação Social com especialização em Produção Editorial, na UFRJ. Paralelamente, fiz licenciatura curta em Inglês. Eu queria trabalhar em editora, mas o mercado estava fraco, e comecei a dar aulas de inglês, ganhando mais que minhas amigas que estavam indo para as editoras; isso enquanto ainda estava na UFRJ. Fiz minha monografia de final de curso sobre a Tradução no Mercado Editorial. Mas ainda permaneci dez anos dando aula. Um pouco depois de voltar de licença maternidade, decidi que era hora de mudar, de tentar o que sempre sonhei. Comecei traduzindo livros para Harlequin, aquela editora de livros de romance água com açúcar, tipo “Jessica” e “Desejo”. Depois, fiz um curso na Gemini Media e passei um tempo fazendo tradução e legendagem de filmes, séries e programas de TV a cabo. Por fim, consegui minha brecha na Objetiva e na Record. Atualmente, faço trabalhos para essas duas editoras.

02- Como foi a experiência de todo o processo de tradução de seu primeiro livro?

Bom, eu tenho uma primeira experiência antiiiga, que foi um quebra-galho para uma amiga. Será que essa conta? Traduzi um livro para Ediouro na época de férias das aulas que eu dava, porque ela precisava que o livro fosse publicado e não tinha ninguém para traduzir. Mas o resultado ficou meio ruim, rsrsrs. O livro era sobre sexo e tinha um monte de limitações, e meu tempo foi mega curto. Nem sei se posso falar de um processo especificamente, porque, para mim, traduzir vem como algo bem natural. Eu vou lendo e traduzindo. Se tenho uma dúvida, paro, pesquiso. Parar nunca me faz perder o fio da meada.

03- Como você conseguiu começar a trabalhar para a Objetiva?

Depois de um tempo desempregada, quando parei de dar aulas, comecei a desesperar e troquei e-mails com várias amigas que estão em editoras atualmente. Fui parar na Harlequin por indicação de uma delas. Algum tempo depois, essa mesma amiga, que é da Objetiva (mas de outro setor, que não tem nada a ver com Stephen King), me mandou um e-mail dizendo que ia me ligar porque tinha uma proposta de trabalho para mim que eu ia amar. Eu quase tive um ataque apoplético enquanto esperava o telefonema dela. Aí ela me falou do projeto do Ponto de Leitura, que precisavam de pessoas para fazer copidesque de alguns livros do King que eles iam republicar, e que ela pensou logo em mim porque lembrava que eu era fã. Fui à Objetiva, conheci a pessoa responsável pelos livros do King (uma das pessoas mais adoráveis que já conheci) e conversamos bastante. Na época, Duma Key ainda não fora publicado e lembro que ela me pediu opinião sobre o título do livro. Saí de lá com o À Espera de um Milagre na mão e uma sensação gigante de desafio, mas do tipo emocionante: ter que mexer no texto e melhorar o resultado final de um livro que amo. Fiz cinco copidesques para o Ponto de Leitura, e ficou em aberto a possibilidade de ter mais no futuro. Acabei também fazendo duas traduções para outra editoria da Objetiva e várias revisões de vários livros da editora.

04- Copidesque ou tradução? Por quê?

Tradução é meu amor, meu xodó. Porque é sempre melhor você escrever a coisa do jeito que acha melhor do que ficar consertando o que os outros escreveram.

05- De todos os copidesques que você já fez nos pockets do King, qual você achou seu melhor trabalho?

Nossa, difícil dizer… Acho que o resultado final melhor foi mesmo À Espera de um Milagre, mas só pelo fato de que tive mais tempo para fazer, não estava me dividindo com outros trabalhos. Depois, começou a aparecer muita coisa, aí o tempo começou a apertar.

06- Você já foi escalada para mais copidesques de pockets ou para alguma futura tradução do King?

Fiz cinco copidesques para o Ponto de Leitura, mas me foi dito que outros títulos do King vão sair futuramente pelo selo e que fariam contato comigo. Mas, pela velocidade de publicação, ainda deve demorar, pois dois dos que fiz ainda nem estão com data de publicação, até onde eu sei. Quanto à tradução, infelizmente, nunca fui convidada a fazer, mas tenho esperanças, rs.

07- Conte sua história de como você passou a ser fã de Stephen King.

Quando eu estudava inglês (e amava), eu lia uma revista chamada Speak Up, onde sempre tinha um conto publicado. Teve um mês que o conto foi “The Boogeyman” (acho que no Brasil saiu com o nome de “O Fantasma”, nome que odeio), do livro Sombras da Noite. Eu terminei de ler com uma sensação de êxtase indescritível. Corri atrás de mais daquele autor, queria mais daquela sensação maravilhosa. Pronto, viciei. Li em português primeiro, depois me aventurei no inglês e nunca mais li nada traduzido dele.

OBS do KoM: Em uma nova reedição do livro, “O Fantasma” (que era o título da edição da Francisco Alves), adquiriu o nome mais adequado de “O Bicho-Papão”.

08- Se você pudesse escolher um livro do King para traduzir, esteja ele já traduzido ou não, qual seria?

Ah, se eu pudesse escolher, traduziria Sob a Redoma, hehehe. Tô lendo e tô amando.

09- Dos livros ainda não traduzidos do King, qual você mais gostaria de ver nas prateleiras brasileiras?

Nem vou levar em consideração os novos, que sei que vão sair. Eu gostaria que “On Writing” fosse publicado aqui. Acho o livro uma iguaria que seria muito apreciada por quem gosta do texto dele e por quem, como eu, ama ler as observações que ele escreve no final dos livros.

OBS do KoM: A Suma de Letras acabou publicando Sobre a Escrita em 2015.

10- Você tem alguma adaptação cinematográfica/televisiva favorita, ou é do grupo de pessoas que prefere apenas os livros?

Costumo mesmo preferir os livros, mas sou fã incondicional de “Um Sonho de Liberdade”, “À Espera de um Milagre” e “Conta Comigo”.

11- Qual foi a pior tradução que você já leu em um livro de Stephen King? E a melhor?

Tem tantas piores traduções!! Mas a que bateu todos os recordes para mim foi O Talismã. Tem coisa que muda até o sentido do texto, e tem fala atribuída a personagem errado.

Não leio traduções de Stephen King há anos, mas já li uma tradução do Fabiano [Morais] de um livro de outro autor e já folheei LOVE: A História de Lisey. Com certeza as dele são as melhores.

12- Para você, qual o melhor tradutor brasileiro em exercício, e por quê?

Essa pergunta é impossível de eu responder, pelo simples fato de que não leio quase livros traduzidos atualmente. Eu poderia dizer que sou eu, hehehehe. Na verdade, as traduções que mais me impressionaram ultimamente foram de livros traduzidos do espanhol, achei o texto maravilhoso (e não pensem que é fácil porque é espanhol, revisei um do Mario Vargas Llosa que estava bem fraco). Não lembro quem eram os tradutores, nem se era o mesmo, mas os livros foram A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e A História do Rei Transparente.

13- Para você, por que Stephen King é um escritor de sucesso?

Porque ele mexe com as emoções das pessoas. A gente lê e se identifica com algum personagem, ou se solidariza, sofre junto, quer saber o que vai acontecer. No fim das contas, acho que o texto dele é o que prende a gente, mais do que a história.

14- Quais são seus outros autores favoritos?

Eu adoro Jonathan Safran Foer, Edgar Allan Poe, Raymond Carver… Li Joe Hill há pouco tempo e gostei do texto dele. E recentemente virei fã da Meg Cabot. Ah, o Carlos Ruiz Zafon também conquistou o espaço dele nos que quero ficar de olho.

15- Qual seu livro favorito, e por quê?

Tipo, favorito de todos os tempos? É impossível uma amante de livros citar só um. O Morro dos Ventos Uivantes, uma história de amor trágica e meio distorcida que me encantou quando eu era muito nova. A Princesa Prometida, que me diverte e espanta a tristeza de qualquer momento na minha vida. O Senhor dos Anéis todo, simplesmente porque é brilhante. E A Torre Negra, que eu fui lendo conforme foi sendo publicado (menos os 2 primeiros) e sofrendo e esperando enquanto os novos não saíam, e que me maravilhou em vários momentos, embora eu perceba que há pontos fracos ao longo dos sete livros.

Obrigado pelo tempo, Nane, tenho certeza de que não só eu, mas todos os fãs do King no Brasil torcem para que a tenhamos como a tradutora que realmente é fã de Stephen King, cuidando os próximos livros d’O Cara.