Maria Beatriz Medina

Entrevista originalmente publicada em setembro de 2012.

Apresentação: Maria Beatriz Medina é a nova tradutora brasileira dos livros do King. Ela chega para substituir o ótimo Fabiano Morais, que traduziu os últimos cinco lançamentos da Suma de Letras/Objetiva (Celular; LOVE: A História de Lisey; A Autoestrada; Duma Key; Ao Cair da Noite).

Como tal, Maria, que já traduziu vários livros de cunho histórico, ficou responsável pela tradução deste ano da Suma, Sob a Redoma, e também da próxima, em 2013, quando será lançado Novembro de 63. Tendo traduzido dois tijolões do Mestre King, não será surpresa se ela continuar conosco por mais um tempo.

Por agora, confiram a entrevista exclusiva que fiz com Maria Beatriz Medina, onde ela fala sobre seu trabalho, como foi traduzir Sob a Redoma, e também um pouquinho sobre o vindouro Novembro de 63, que já está em estágio final de tradução.

01- Fale-nos um pouco do que te fez querer ser uma tradutora, e como foi o caminho até chegar lá.

A minha formação é de programação visual – estudei na ESDI, no Rio de Janeiro, e passei a maior parte da minha vida profissional trabalhando como diretora de arte de agências e diagramadora  de jornais e revistas. A tradução era um bico, um passatempo, por ser muito pouco produtiva na época da máquina de escrever e dos dicionários de papel. Trabalhar como diretora de arte, jornalista e diagramadora era bem mais rentável. No final do século passado, já com computadores, dicionários eletrônicos e acesso à Internet (ainda limitado na época), um amigo me repassou um livro que não teria tempo de traduzir; o meu serviço agradou à editora, que mandou outro livro, depois mais outro – e, assim que me firmei nesse mercado, saí do jornalismo carioca para me dedicar à tradução em tempo integral.

02- Você considera que, durante o processo de tradução, o profissional encarregado da tarefa vê o conteúdo do livro com distância ou acaba se envolvendo com a história?

Não sei quanto aos outros tradutores; eu sempre me envolvo com a história. Há livros muito difíceis não pela linguagem nem pelo vocabulário, mas pelo tema, como um que contava histórias dos campos de extermínio nazistas. As lágrimas que escorriam dificultavam enxergar o monitor e pingavam no teclado. Há também casos engraçados: ao traduzir artigos sobre urologia feminina para uma revista médica, eu não parava de me levantar para ir ao banheiro…

03- Qual o maior desafio da tradução literária de uma forma geral?

Transmitir a mensagem do autor do jeito mais fiel possível, com a  forma mais fiel possível, respeitando o estilo, a intenção, as idiossincrasias. Não costuma ser tarefa fácil, mas quando encontramos uma solução que achamos satisfatória a sensação que dá é profundamente compensadora.

04- Durante a tradução de Sob a Redoma, houve algum aspecto que demandou muita pesquisa?

Toda tradução me demanda muita pesquisa. A gente nunca domina o tema e a linguagem tão bem quanto o autor. Além disso, é impossível traduzir quando não se entende o que está escrito. Em Sob a Redoma, pesquisei muito a cultura americana cotidiana, as marcas de produtos, os nomes de lojas e empresas, as gírias específicas do Maine e do exército americano. E depois há toda a pesquisa para encontrar os equivalentes em português.

05- Conte como foi o contato da Suma de Letras que te selecionou para traduzir o Sob a Redoma.

Eu já vinha traduzindo para a Objetiva, outro selo da mesma empresa. O tradutor que trabalhava com King não pôde pegar esse livro, e ele me foi oferecido. A editora me mandou um teste, que fiz e foi aprovado. Simples assim.

06- Como sabemos, Sob a Redoma é um livro enorme de quase mil páginas. Conte-nos um pouquinho sobre como foi o processo de tradução.

A minha produtividade nesse livro foi de umas cem laudas por mês. Não fugiu muito da minha média por livro. No total, foram dez meses e meio para traduzir e reler o livro inteiro. O fato de o livro ser enorme não dificulta o serviço; eu diria que talvez até facilite, porque o autor acaba se tornando um colega de trabalho, aquele que encontramos diariamente durante quase um ano, e ficamos cada vez mais familiarizados com a sua “voz”.

07- Qual foi o seu maior desafio traduzindo Sob a Redoma, e o que você achou do livro?

Em primeiro lugar, encontrar o tom certo em português para transmitir o estilo de Stephen King, que, embora bastante coloquial, tem certa sofisticação muito própria. Depois, foi a minha briga com o autor conforme o final se aproximava. Fiquei revoltada! Eu teria terminado o livro de outra maneira.

08- Você já conhecia o trabalho do King? Se sim, teria algum livro favorito?

Não, não conhecia. Esse foi o primeiro livro dele que li. De certa forma, foi bom, porque não estava contaminada: tudo era novo e tive de elaborar o “meu” Stephen King para transmiti-lo aos leitores brasileiros.

09- Tem algum filme baseado nos livros do King que você gosta?

Olha, para você ver como eu conhecia pouco a obra dele, levei um susto ao descobrir que “Carrie, a Estranha” e “Cemitério Maldito” se baseavam em obras suas. “Carrie, a Estranha” foi uma comoção quando lançado, em 1976, mas, na época, não achei que fosse um grande filme (não sei o que pensaria se o revisse agora). Já “Cemitério Maldito” me impressionou muito quando assisti. Não conheço os outros filmes baseados na sua obra. Filmes de terror não são o meu forte, é difícil que me aterrorizem.

10- Existe algum livro já traduzido que você gostaria de ter traduzido (pode ser qualquer livro, mesmo sem ser de King), e por quê?

Essa é uma pergunta difícil. Gostaria de ter traduzido Mark Twain, embora a linguagem com muitas gírias antigas do sul dos Estados Unidos me assuste um pouco. Dele, adoraria traduzir Pudd’nhead Wilson, mas não sei se já foi traduzido para o português. Outro escritor que gostaria muito de ter traduzido é Nathaniel Hawthorne, um dos literatos americanos de que mais gosto. A Letra Escarlate é maravilhoso. L. Frank Baum, de O Mágico de Oz, também é gostosíssimo; traduzi alguns livros da série para os meus filhos, quando pequenos, embora ainda sejam traduções inéditas; acho que em português só saiu tradução do primeiro livro, o mais famoso.

11- Qual (e de quem) foi a melhor tradução brasileira que você leu ate hoje, e por quê?

Xi, difícil saber. Antes de me tornar tradutora profissional, já lia muito, mas não prestava atenção nessas coisas. Lembro-me de ter ficado admirada com a meticulosidade do tradutor que verteu Huckleberry Finn para o português, que li na adolescência, mas teria de relê-lo hoje para ver com olhos mais críticos se essa impressão tão antiga se confirmaria. Também me lembro de que as obras de Edgar Allan Poe traduzidas por Oscar Mendes e Milton Amado e publicadas pela editora Aguilar chamaram a minha atenção. Ah, gostei demais da tradução da série Harry Potter para o português; acho que a Lia Wyler fez um excelente trabalho e permitiu que muitas crianças brasileiras tivessem contato com o prazer da leitura com um texto cuja qualidade, em geral, superava bastante a do texto original.

12- Sobre o título Sob a Redoma. A Suma de Letras pensou muito antes de dar sinal verde para este título? Havia outras opções? Se sim, quais?

Não sei. Tradutores não costumam ter acesso às decisões das editoras. Se você fala literalmente do título, a princípio usei “cúpula”, mas “redoma” é realmente bem melhor.

13- A Suma de Letras me informou que para o ano que vem, eles estão preparando o Novembro de 63, que também terá a sua tradução; o que você achou deles te passarem mais um livro do King?

Fiquei muito lisonjeada, porque é sinal de que gostaram do meu trabalho. E nós, tradutores, somos tão pichados na imprensa e nas rodinhas de conversa que um sinal de aprovação como esse tem valor dobrado…

14- Como vai a tradução deste novo livro, e o que você está achando/achou do livro em si, e da tarefa de traduzir mais um livro enorme do King?

Bom, como o King já é meu colega de trabalho há vários meses, no quesito estilo e linguagem posso até dizer que o serviço ficou mais fácil. Estou gostando mais deste livro agora, faz mais o meu estilo – mas também já comecei a brigar com o autor por causa do final.

15- Finalmente, dê um recado a todos os fãs brasileiros que esperam ansiosamente pelas suas traduções de Sob a Redoma e Novembro de 63.

Olha, espero que gostem dos livros! É uma delícia traduzi-los, fiz e estou fazendo o melhor que posso e espero que todos tenham muito prazer na leitura dessas obras.

King of Maine agradece o tempo e disposição de Maria Beatriz Medina para conceder a entrevista. Desejamos todo o sucesso.