Fabiano Morais

Entrevista originalmente publicada no dia 07/01/2010.

King of Maine entrevista o tradutor Fabiano Morais, responsável pelas traduções dos livros Celular; LOVE: A História de Lisey; A Autoestrada; Duma Key e Ao Cair da Noite.

Apresentação: “Bem, tenho 29 anos, vivo em Niterói – RJ, sou formado em Letras-Inglês pela Universidade Federal Fluminense e trabalho no/com o mercado editorial há praticamente dez anos, desde os 19. Quando estava no segundo período da faculdade, fui selecionado para um estágio de assistente editorial na Objetiva, onde, entre outras coisas, era responsável por uma primeira leitura, anterior à revisão, das traduções que chegavam — o que se convencionou chamar no mercado de preparação de originais (embora nesse caso seja preparação da tradução do original, mas, enfim, vocês entenderam :-). Foi assim que tive contato com a obra do King, de quem não era leitor antes de começar a trabalhar na editora. Meu primeiro trabalho como freelancer, inclusive, quando ainda era estagiário, foi copidescar as traduções do Tripulação de Esqueletos e do Dança Macabra. Fiquei muito satisfeito com o trabalho que fiz no Dança Macabra. Já no Tripulação de Esqueletos, como foi o primeiro trabalho que fiz, acho que hoje mexeria em muito mais coisas, já que as traduções antigas, compradas na época da Francisco Alves, são muito fracas, como vocês sabem. Desde então, muita água passou por debaixo da ponte: algum tempo depois de ser efetivado como assistente editorial, saí da editora para terminar minha faculdade a contento e me dedicar ao trabalho de tradução, no qual acabei me encontrando. Aliás, como já estou quase respondendo a algumas das perguntas nesta introdução, acho melhor parar por aqui, né? Vamos às perguntas!”

Sobre King e seu trabalho

01- Tradução foi sempre sua principal meta profissional?

Então, dando continuidade ao que disse acima, passei a traduzir assim que saí da editora, depois de alguns trabalhos como revisor, em parte porque precisava continuar trabalhando enquanto terminava a faculdade e em parte por que já estava habituado a lidar quase diariamente com traduções na Objetiva e achava que poderia fazer um bom trabalho. Sempre gostei de escrever e realmente não consigo me imaginar trabalhando com outra coisa. Sinto um grande prazer em burilar o texto, tentar deixá-lo o mais fluente e “redondo” possível. Traduzir, para mim, se você se dedica realmente ao ofício, lhe dá um domínio muito interessante e profundo da palavra escrita, do que funciona e do que não funciona num texto; faz você entender, como nenhuma outra coisa que eu conheça, o que é um bom texto. E, ao contrário do que muita gente pensa, envolve muito menos criação e muito mais compreensão e humildade em relação ao texto do outro — é uma linha tênue entre o respeito pelo texto alheio e sua capacidade de reinventá-lo, transmitindo ideias numa língua que é estranha ao autor, tentando sempre imaginar o que ele tinha em mente quando escreveu aquilo e como escreveria se sua língua nativa fosse o português. É como dizia Guimarães Rosa: “traduzir é conviver”. Entendo que o trabalho do tradutor, de literatura especialmente, deve se encarado com muita prudência, paciência e dedicação, e de outro jeito, para mim ao menos, simplesmente não rola. Tento ao máximo me dedicar exclusivamente à tradução hoje em dia, pois acho complicado “encaixá-la” nas horas vagas — a meu ver, para se traduzir literatura, é preciso imersão. Por isso mesmo tem muita gente se esforçando para que haja mais reconhecimento do trabalho do tradutor, o que felizmente vem acontecendo, aos poucos, mas vem acontecendo. Posso dizer de cadeira que, nesses 10 anos em que trabalho no/com o mercado editorial, vi a profissão ganhar mais prestígio e reconhecimento. Ainda há um caminho longo a trilhar, mas estamos conquistando um maior destaque pouco a pouco.

02- Como funciona detalhadamente o processo de tradução de um livro?

Depende um pouco. Atualmente, como trabalho para poucas editoras (duas, essencialmente), venho “enfileirando” trabalho com elas. Quando termino um, a editora costuma me oferecer outro e assim por diante. Quando recebo o livro, calculo uma produção de “X” laudas por dia e negocio o prazo. Isso é o normal, mas existem casos especiais, com prazos mais apertados, etc. Produzo cerca de 100 laudas/mês para cada livro (geralmente estou com dois) e, ao final do trabalho, reviso toda a tradução para tentar deixar o texto o mais uniforme possível.

03- Qual autor que você mais gosta de traduzir, e por quê?

Não tenho necessariamente um autor preferido para traduzir, pois geralmente não “repito” autores. Já estou no meu quinto livro do King (contando o A Autoestrada, que é um Livro de Bachman) e posso dizer que é um dos autores que mais me dá prazer, inclusive pelo desafio. Robert Harris e Nick Cave também foram dois autores com os quais gostei muito de trabalhar.

04- Se você pudesse escolher apenas um outro profissional em tradução para traduzir todos os livros de King, exceto você mesmo, quem seria? E por quê?

A pessoa que me vem à mente é o Carlos Irineu da Costa, tradutor, entre outras coisas, dos livros do Douglas Adams. Acho que é um cara com uma grande sensibilidade para literatura e que faria um ótimo trabalho com o King.

05- Na sua opinião, quais os fatores que podem contribuir e os que atrapalharam até hoje para a publicação de livros como Hearts in Atlantis, The Girl who Loved Tom Gordon, The Colorado Kid, etc…?

Nunca li nenhum dos livros inéditos no Brasil do King, mas acredito que a editora entenda que todos os outros que foram lançados até agora teriam mais apelo comercial do que os que você citou. Com o tempo, muito possivelmente esses livros serão sim lançados, pois a Objetiva vem, como você sabe, intercalando o lançamento de livros inéditos com o de outros mais antigos. Acredito mesmo que seja apenas uma questão de tempo, mas essa é a opinião de alguém que há muito não participa diretamente das decisões da editora… Você deve se lembrar que muita gente achava que a série A Torre Negra não seria lançada por aqui e agora temos os sete volumes em português, então…

06- Se você pudesse escolher apenas um dos livros de King, já traduzidos ou não, para traduzir, qual seria e por quê?

Acho que gostaria bastante de traduzir o Sobre a Escrita. Gosto muito do King “falando por si mesmo”, tanto que o meu favorito dele talvez seja o Dança Macabra, e acho que ele tem um insight muito interessante sobre vários assuntos. Sempre que leio os textos mais opinativos do King, me pego concordando com ele e acho que, quando ele escreve dessa forma, você vê como ele é um cara inteligente e que pensa literatura. Acredito que traduzir o Sobre a Escrita seria muito prazeroso (até mesmo porque não teria todos aqueles trocadilhos e jogos de palavras que me tiram tanto o sono!).

07- Dos livros de King que você traduziu até agora, qual o que você mais gostou, e por quê?

Não consigo muito pensar em termos de “livro preferido”, mas acho que o LOVE: A História de Lisey foi muito importante. Foi um trabalho difícil e o livro mais audacioso que havia traduzido até então; tenho para mim que ele me fez amadurecer como tradutor, ficar mais atento ao detalhe, às minúcias do texto, à musicalidade dele. Era um livro em que as soluções tinham que funcionar muito bem ou a tradução corria o risco de ficar meio ridícula. A Julia Michaels, editora do King na Objetiva, foi essencial no processo, apontando saídas e retificando outras, quando eu me sentia inseguro em relação a um termo, uma solução. Todo livro é assim, no sentido que um bom editor é fundamental para uma boa tradução, um bom texto, mas o “LOVE” com certeza é um livro que tem pai e mãe — tenho orgulho de ter trabalho nele.

Sobre “Duma Key”

08- Englobando tudo, o que mais lhe agradou na leitura de Duma Key?

Acho que é um livro mais bem resolvido do que, por exemplo, o LOVE: A História de Lisey, que me parece um pouco pretensioso (no mau sentido), às vezes. Duma Key é um livro mais direto, que ganha muito por ter um excelente personagem principal. Tirando o Barton Dawes, do A Autoestrada”, até agora, para mim, Edgar Freemantle é o personagem mais rico de King (levando em consideração os livros que li, ou seja, os quatro romances que traduzi — guardem as pedras!). Dá para ver que o King se esmerou em criar um personagem diferente do habitual, mais maduro e idiossincrático, cheio de nuances.

09- Qual foi o maior desafio na tradução de Duma Key?

Tenho que admitir que o Duma Key foi um livro mais tranquilo de fazer, pois já estou mais habituado ao cacoetes do King e até às brincadeiras linguísticas que citei mais acima, que são sempre um desafio à parte. Demorei um pouco para acertar o tom da narração do Edgar Freemantle, tive que revisar bastante no começo, até por ele ser um personagem diferente do que estava habituado a ver nos livros do King, de um estrato social diferente, inclusive. Ele é mais ou menos um novo rico, um cara que ergueu sua fortuna com as próprias mãos e agora transita em um meio que não é originalmente o dele; tem uma coisa de ele ser mais sofisticado, mas ao mesmo tempo não ser; de entender intuitivamente de arte, mas ser capaz de falar as maiores grosseirias. É um personagem curioso, gostei de “conviver” com ele.

Sobre “Ao Cair da Noite”

10- O que você já pode nos adiantar de Ao Cair da Noite, próximo lançamento inédito da Objetiva, programado para chegar ao mercado em 2010 (o livro acabou sendo postergado para 2011)?

Até o momento, nem posso adiantar muito, pois não avancei tanto assim nele. O primeiro conto é grandinho e teve que ser bastante trabalhado, é cheio das “gracinhas” de linguagem típicas do King que sempre menciono. Os outros me parecem mais “normais”, por assim dizer. Não costumo ler os livros antes de traduzi-los, vou lendo à medida que traduzo — e não acho que afete o resultado final, uma vez que sempre releio de cabo a rabo ao fim, de modo que não tenho como dizer muito.

Perguntas dos Leitores

01- Durante a tradução do Duma Key, havia por parte da Objetiva algum outro título provável para essa obra que não fosse o título original? Se sim, qual(is) era(m)?
Roberto Veríssimo – DF

Não que eu saiba. Talvez houvesse no início a ideia de conjugar o título original com um subtítulo, mas realmente não sei dizer. Acredito, de qualquer forma, que a tendência, nesse caso, sempre tenha sido manter o original.

02- Você já havia lido algum livro do King antes de começar a trabalhar na tradução deles? Você se considera um fã de King? E o que você acha de seus livros?
Andre System Guerra – Belo Horizonte/MG

Como disse na introdução, só fui ter contato com o King quando fui trabalhar na Objetiva, copidescando traduções já existentes. Não me considero um fã, pois, para mim, fã é quem acompanha um autor de forma assídua, por prazer, identificação, o que seja. E, de qualquer forma, minha relação com o texto dele é diferente, não é necessariamente de fruição — embora muitas vezes me divirta bastante no processo. Aprendi a ter uma admiração pelo trabalho do King, a vê-lo como um autor sério, comprometido com o que faz, e que vai muito além do estereótipo que se faz dele. Já conhecia muito bem as adaptações para o cinema, pois desde que me entendendo por gente sou grande fã de cinema de horror. Acredito que, até certo ponto (“Sonâmbulos”, talvez?) acompanhava todas as adaptações. Estranhamente, nunca busquei lê-lo, embora lesse outros autores fantásticos, como Poe, Clive Barker, Anne Rice. Isso lá na adolescência, milênios atrás.

03- Qual o tempo médio que se leva para traduzir um livro?
Thiago Silva – Brasília/DF

Como falei também acima, a média por livro é de coisa de 100 laudas por mês. Um livro de umas 350-400 páginas leva normalmente uns 4 meses. Gosto também de manter uma, duas semanas no fim para revisar tudo e deixar a tradução o mais coerente possível.

04- O que é necessário para se tornar um tradutor?
Padre Hellsing – Porto Alegre/RS

Taí uma pergunta complexa! Além do básico, que é um bom conhecimento das línguas de partida e chegada, acredito ser importante alguma espécie de formação em Letras, ou que envolva em algum momento produção textual, linguística, etc. O conhecimento da Língua Portuguesa é essencial — mais importante do que o domínio (não o conhecimento) da língua de partida — e, teoricamente, uma formação superior ajudaria bastante nesse sentido. Por outro lado, existem pessoas que possuem uma sensibilidade especial para com o texto, sem necessariamente terem formação na área. Bons poetas geralmente dão bons tradutores, pois eles teriam uma relação mais íntima com a palavra, sabem melhor “transformá-la”. Vale lembrar que durante muito tempo no país, antes da maior profissionalização da profissão que temos hoje em dia, nossos tradutores eram Cecília Meireles, Mario Quintana, Erico Verissimo. Nas décadas de 1950 e 60, a Editora Globo daí de Porto Alegre criou, por exemplo, a Sala dos Tradutores, que reunia ilustres como o próprio Verissimo, Herbert Caro (responsável pelas traduções do Thomas Mann), e muitos outros, para verter os clássicos para o Português. O que estou querendo dizer é que o tradutor é uma espécie de monstro, que utiliza toda sua experiência de mundo, suas leituras, seu “jeito com palavras” para compreender o que está escrito e redizer na sua língua. Não existe formação específica, assim como não existe formação específica para ser escritor. Óbvio que você pode se especializar, estudar, pesquisar tradução e tudo isso transformará você em um melhor tradutor — e é bom que o tradutor passe a ser cada vez mais profissionalizado — mas de alguma forma, e isso pode ser apenas romantismo bobo da minha parte, é preciso um pouco ter “el duende”, como diria García Lorca.

05- Em LOVE: A História de Lisey, vemos muitas gírias e palavras inventadas em toda parte, praticamente impossíveis de se traduzir ao pé da letra. Eu gostaria de saber como você faz para traduzi-las sem perder a ideia inicial do autor e sem deixar o leitor perdido?
Renan M. Rossi – Itápolis/SP

Renan, como disse acima, muitas vezes as decisões nesses casos especiais foram debatidas com a editora e, não sei se você se lembra, cheguei a criar um tópico na comunidade do Orkut para discutir algumas delas e chegar a soluções que agradassem o máximo possível. Em muitas ocasiões tive que quebrar a cabeça (ESPANE, engatilhar, josta) para tentar manter a “cor” do texto sem cair no ridículo. Ao pé da letra, realmente, não dá pra traduzir quase nada, de modo que é preciso uma boa dose de criatividade nesses casos. Ajudou o fato de eu já ter trabalhado com o King antes do LOVE e estar bem familiarizado com o tipo de humor dele e com a relação… peculiar que ele tem com a infância. O fato de Scott “regredir” e uma parte significativa do livro remeter a um mundo fantástico ligado ao imaginário infantil me ajudou a entender que poderia soar ingênuo, quase bobo, em algumas dessas coisas inventadas. Isso facilitou, pois me deu mais liberdade para jogar com construções que remetessem à infância, que soassem um pouco infantis.

King of Maine agradece a Fabiano Morais pelo tempo e pela gentileza em responder às perguntas. O site deseja um grande futuro de sucessos. Até a próxima!