Andre Gordirro

Entrevista originalmente publicada em maio de 2013.

Apresentação: Como parte do Especial “A Torre Negra – O Vento pela Fechadura“, o King of Maine convidou o tradutor do livro, Andre Gordirro (que além de ser tradutor, também é jornalista e crítico de cinema), para uma entrevista de 14 perguntas. As perguntas versam sobre sua carreira profissional, seu histórico com a obra e as adaptações de King, e, claro, sobre como foi o processo de tradução deste novo capítulo da saga A Torre Negra.

01- Conte-nos quando você decidiu trabalhar como tradutor, o que lhe inspirou e como chegou lá.

Eu sempre tive curiosidade quanto à profissão, mas o motivo foi puramente econômico, uma decisão tomada quando me vi sem emprego. Como sou jornalista e domino o português e o inglês, já revisava algumas traduções a pedido de um amigo editor, e também traduzia muitas reportagens compradas de agências internacionais para a revista SET, de cinema, onde escrevi por dez anos. Quando ela fechou, pintou o convite para traduzir um livro e nunca mais parei.

02- Dentre todos os seus trabalhos como tradutor, qual foi o seu favorito, e por quê?

A série Leviatã, do Scott Westerfeld. Foi a primeira série que peguei desde o início, já tendo feito dois volumes (III e IV) da série Feios, do mesmo autor. Eu gosto de “steampunk”, de história alternativa, e o Scott é muito imaginativo. Além disso, travamos contato direto pelo twitter, o que tornou a experiência mais pessoal.

03- Quais autores você gosta de ler? Você tem algum livro e autor favoritos?

Duna é meu livro predileto de todos os tempos, e aí o Frank Herbert, seu autor, acaba sendo meu favorito, apesar de eu achar que ele perdeu a mão na série do livro IV em diante. Três caras dominam minhas estantes: o Michael Moorcock (pai do Elric de Melniboné), o R.A. Salvatore, um picareta que faz fantasia de consumo rápido, tipo McDonald’s – ruim, mas viciante (risos), e o Timothy Zahn, esse o melhor cara a escrever Star Wars até hoje.

04- Você teve algum controle sobre o título que a obra receberia no Brasil? Se sim, havia algum outro título em mente além de O Vento pela Fechadura?

Eu dou muito pitaco quando o título é difícil; no caso desse livro do King, não pensei em outra opção que não fosse essa. Colocar “buraco da fechadura” seria redundante, e fora que buraco é uma palavra feia que remete a… deixa para lá (risos).

05- Você já havia lido algo da obra de Stephen King antes de O Vento pela Fechadura? Se sim, possui algum livro ou conto favorito dele?

Eu revisei Sombras da Noite, um livro de contos do King para a Objetiva, que foi meu primeiro e único livro do King, até então.

06- E quanto aos filmes baseados na obra de King, há algum que você goste?

Dos filmes de horror, eu gosto mais do que ele colaborou com material original, como “Creepshow”. Nas adaptações, entram “Trocas Macabras”, “O Iluminado”, “Conta Comigo”, “Na Hora da Zona Morta”, “O Aprendiz” e “Louca Obsessão”.

07- Você fez alguma preparação antes de traduzir este livro, como ler os outros volumes da saga, ou ler a respeito deles para conhecer a história, ou pensou que seria melhor evitar isso?

Eu até queria, mas não deu. Eu emendo um livro atrás do outro e mal tenho tempo para dar conta de minha própria leitura pessoal. Então, encarar mais de cinco tijolos para me preparar para O Vento foi inviável. Felizmente, eu colecionara o gibi americano d’A Torre Negra, com arte do Jae Lee, então, pelo menos, não entrei tão às cegas assim.

08- Com O Vento pela Fechadura você decidiu dar sua própria cara à tradução de nomes, objetos e lugares próprios daquele mundo, ou você pesquisou como haviam sido traduzidos tais termos anteriormente por seus colegas?

Bem, acho que houve mais de um tradutor na série, e também mais de um editor, então não há uma tradução que eu chamaria de coesa. Mantive os termos básicos, e aqueles em que havia conflito, dependendo da versão, ou eu pegava o que achei mais bacana ou simplesmente joguei para o alto e criei o meu, visto que a série, repito, não prima pela coesão.

09- A Editora Objetiva chegou a considerar a publicação da saga A Torre Negra impossível, mas devido ao grande clamor dos fãs, as traduções acabaram sendo realizadas. Você tinha alguma ideia da importância desta obra para os fãs de Stephen King enquanto traduzia?

Bem, como sou fã de trocentas outras coisas, sei que não há raça pior do que fã. Nós somos pentelhos e queremos tudo certinho e tratado com o maior respeito e capricho. Foi assim que encarei a série, mesmo não sendo fã dela – que pessoas apaixonadas por A Torre Negra aguardavam um trabalho bem feito.

10- Sem revelar spoilers, o que você achou de O Vento pela Fechadura num todo? O que foi o melhor e o pior da obra?

O pior da obra é ter pouca relevância para a saga. O Michael Moorcock é mestre em tirar mais ovos da galinha dos ovos de ouro dele; a série do Elric já está encerrada, e, mesmo assim, ele sempre acrescenta um capítulo perdido entre um e outro evento vivido pelo personagem. O melhor é a estrutura da história-dentro-da-história, um artifício narrativo velho, porém quando bem utilizado (como é o caso aqui) funciona muito bem.

11- Qual foi o maior desafio em traduzir este volume d’A Torre Negra?

A pesquisa insana. Cada termo eu ficava pensando “como será que isso saiu em outros capítulos?” e isso consumia um longo tempo. Demorava mais tempo pesquisando do que mesmo traduzindo.

12- Quanto tempo, mais ou menos, você levou para traduzir O Vento pela Fechadura? Como foi o processo da tradução?

Eu não lembro porque já entreguei faz tempo. Porém, todo livro eu traduzo no ritmo de dez páginas (do original) por dia. A pesquisa fez com que essas dez páginas levassem quase o dia inteiro, ao contrário de um livro zerado, que me dá tempo para fazer outros serviços como “freelancer”. Agora, o Stephen King é um cara econômico nas descrições, então isso deu uma acelerada.

13- Existe mais algum livro de Stephen King esperando sua futura tradução? Se sim, poderia revelar qual? Caso não exista, há qualquer livro de Stephen King que você gostaria de traduzir, ou ter traduzido?

Não, nada do King para mim no futuro, por enquanto. Eu acredito que gostaria de ter traduzido Trocas Macabras por ter o prazer de traduzir os diálogos do Diabo em pessoa.

14- Você poderia mandar um recado aos fãs que estão esperando ansiosamente para ler este novo livro da saga A Torre Negra?

Espero que gostem da tradução e me desculpem se não peguei o espírito da coisa por pegar o trem tão tarde, mas acreditem que a história tem um mistério bacana e um clima legal, inclusive de saudosismo, por se tratar de uma aventura antiga de personagens que já tiveram suas histórias encerradas.

King of Maine agradece o seu tempo e disposição para a entrevista, e deseja muita boa sorte na sua carreira.