Under the Dome: 2ª Temporada

A resenha a seguir apresenta spoilers do seriado “Under the Dome” e de “Lost”, e representa apenas a opinião do autor.

Cá estamos nós de novo. A bola da vez é a segunda temporada de “Under the Dome – Prisão Invisível”. Sim, amigos e amigas, faz-se necessária a citação deste subtítulo horroroso criado pelo marketing da Rede Globo de Televisão, que resolveu que a série deveria ter um nome tão ridículo quanto sua trama.

Ano passado, quando carinhosamente detonei a primeira temporada, admiti que seria muito difícil a qualidade da série aumentar. Quando percebi que os roteiristas mandariam o livro às favas, revoltei-me. Mas tudo bem; sou mente aberta. Só porque a série não seguiria o livro tim-tim por tim-tim não quer dizer que seria ruim. Eu estava aberto a mudanças positivas. Se “Under the Dome” possuísse atuações boas, trama inteligente e roteiro de fazer o telespectador ansiar pelo próximo episódio, mal seria notado que esta é uma adaptação que não aproveita quase nada do material original.

“Under the Dome” continua sem ter nada disso. Nem a breve aparição de King no primeiro episódio desta temporada, ou que ele o roteirizou, são pontos a favor da série. O espetáculo de bizarrices e situações ridículas foi quadruplicado nesta temporada, fazendo o gênero da trama mudar de vez para a comédia pastelão.

Após 26 episódios, é dito na série que apenas duas a três semanas se passaram. Em mais ou menos 15 dias, os seguintes eventos aconteceram:

  • A redoma caiu;
  • Chester’s Mill trocou de xerife QUATRO vezes (Duke, Linda, Phil, Big Jim);
  • Julia e Barbie se apaixonaram e já trocaram “eu te amos” (embora ele tenha matado o ex-marido dela, e ela SAIBA disso);
  • Estrelas rosas e toda a história do ovo;
  • Um míssil é jogado na redoma;
  • A cidade enfrenta seca quando o rio é contaminado;
  • Guerra do propano;
  • Clube da luta clandestino;
  • Algum ser sobrenatural toma o corpo da mãe morta de Norrie e avisa que a redoma está ali para proteger todo mundo;
  • Maxine atira em Julia (nada que a impeça de andar por aí novinha em folha na temporada seguinte, que se passa alguns dias depois);
  • A redoma torna-se opaca;
  • A redoma torna-se magnética;
  • Angie, a garota por quem Junior é desesperadamente apaixonado desde criança, a ponto de prendê-la no porão de casa, é assassinada. Ele resolve a situação se apaixonando novamente… uma semana após o enterro da moça;
  • As plantações da cidade são ameaçadas por uma praga de insetos;
  • A cidade é castigada por chuva ácida e uma tempestade de areia;
  • Uma moça morta nos anos 1980 ressuscita;
  • Barbie descobre uma saída da redoma que Big Jim acaba fechando sem querer;
  • A mãe de Junior está viva e tem visões do que vai acontecer na cidade;
  • As quatro estações passam pela cidade num piscar de olhos;
  • A redoma começa a girar;
  • A redoma começa a encolher.

Uaaaau. Uau, mesmo. E olha que essa lista eu fiz de cabeça. Claro que mais coisas aconteceram, como os trocentos assassinatos que Big Jim cometeu; a história da borboleta Monarca; o pai de Barbie e tantas outras loucuras. Mês animado para os habitantes de Chester’s Mill, eu diria.

A segunda temporada de “Under the Dome” parece simplesmente ser inventada na hora, tamanho o absurdo das situações e dos comportamentos hilários dos personagens. Cansei de contar quantas imbecilidades o personagem Junior fez por episódio. Ou quantas idiotices foram proferidas por Julia. Personagens idiotas, tramas absurdas, diálogos risíveis, atuações tristes, trapalhadas hilárias… isto é “Under the Dome”.

A falta de talento e de originalidade dos roteiristas é evidenciada como nunca na metade deste novo ano da série. É mais ou menos nesta fase da história que eles resolvem jogar tudo para o alto e plagiar na cara dura alguns momentos de “Lost” (lembra dessa série, né?). Não acredita? Vejamos…

Na terceira temporada de “Lost”, o personagem Charlie usa uma caneta piloto para escrever na mão uma mensagem muito importante sobre a suposta “salvação” dos personagens não ser exatamente uma bênção. Em “Under the Dome”, Barbie faz o mesmo ao sair de Chester’s Mill para avisar a Julia que pessoas perigosas estão à espreita.

Charles Widmore, famoso magnata e pai da paixão de Desmond, está louco para pôr as mãos em algo muito precioso da ilha. Adivinha o que o pai de Barbie, famoso magnata, quer?

Um tema recorrente em “Lost” é “homem da ciência, homem da fé”. Um paralelo entre os personagens John Locke (que acreditava que tudo na ilha tinha uma razão de acontecer), contra Jack Shephard, que buscava explicações científicas para os mistérios do lugar. Em “Under the Dome”, a coisa se repete com Julia Shumway acreditando piamente nas intenções da redoma, enquanto a professora de ciências, Rebecca, tenta achar explicação para tudo de ruim que acontece por lá.

Ben Linus conhecia um jeito de sair da ilha. Ele deveria ir ao subterrâneo de uma das estações de orientação da ilha e girar uma espécie de leme. Em “Under the Dome”, bastava cair num abismo para magicamente ser transportado para fora da redoma.

Ao retornarem para Chester’s Mill, Barbie e seus companheiros são surpreendidos por uma fumaça misteriosa que os faz ter visões e flashbacks. Lembra algo?

Durante o famoso “incidente” da série “Lost”, os cientistas da Dharma acabam atingindo um bolsão no subterrâneo da ilha, liberando uma quantidade violenta de eletromagnetismo. No começo da nova temporada de “Under the Dome”, a redoma sente-se com vontade de ficar magnética.

E olha que só foi por pura preguiça não destaquei os fantasmas ambulantes; os personagens que voltam dos mortos (Melanie/Locke); a fonte de poder cobiçada pelos respectivos magnatas (ovo/coração da ilha); os personagens que querem dominar a redoma/ilha (Big Jim/Ben Linus).

Também não quis me alongar muito no assunto da ferida de bala de Julia, ou mencionar o prego que atravessa a mão de Joe (curada no episódio seguinte), ou o pedaço de ferro que atravessa a perna de Julia (e que aparentemente fere mais o jeans do que ela mesma, já que passa a usar uma atadura por cima da roupa)… enfim, vocês já entenderam.

Então, como levar essa série a sério? Não dá.

“Under the Dome” está se desenhando para terminar na terceira temporada (ou é isso que meu coração deseja com todas as forças, e eu talvez esteja me iludindo). A série se tornou oficialmente uma ofensa para espectadores – e nem sequer digo “aos admiradores do livro”, porque, como disse no começo, se a série fosse realmente boa, isso não importaria muito.

Outro sinal que pode apontar para o fim é que a audiência caiu bruscamente. Enquanto a primeira temporada teve uma média de 11 milhões de telespectadores, a segunda arrecadou média de 6.5/7 milhões, uma queda de quase metade do ibope. Talvez a CBS agora perceba que o cachorro está morto.

Ainda há esperança.