Under the Dome: 1ª Temporada

A resenha a seguir apresenta spoilers do seriado “Under the Dome”, e representa apenas a opinião do autor.

“Under the Dome”… ah, “Under the Dome”… por onde começar… vamos apenas dizer que se você for um grande fã da série, provavelmente me xingará. Sim, esta vai ser uma crítica negativa da série de maior sucesso do verão norte-americano em muito tempo.

A média de audiência da série manteve um fiel montante de 10-11 milhões de pessoas ligadas no canal CBS durante os três meses em que foi exibida. Qualquer um que visse esses números, pensaria que se trata de uma série espetacular, um novo fenômeno televisivo à la “Lost”. Mas não é. Esqueça a redoma, esqueça o ovo, esqueça tudo, talvez o maior mistério de “Under the Dome” seja este: como uma série tão descuidada, pobre e involuntariamente engraçada pode ter angariado tanta audiência? Eu não me proponho a responder essa pergunta, mas vou apresentar minha opinião acerca dos 13 episódios que formam a primeira temporada do seriado.

Bem… vamos começar com o inadiável: o assassinato do livro. Não vou entrar no mérito de explicar diferença por diferença por dois motivos: a) essa resenha teria dois quilômetros; e b) eu não soltarei spoilers do livro, apenas da série. De qualquer forma, é isso o que acontece: o seriado pegou a premissa da redoma gigantesca desabando em Chester’s Mill, o nome de alguns personagens e a própria cidade. Só. Tudo o mais foi alterado. Personalidades dos personagens, profissão dos personagens, até a faixa etária de alguns foram modificados em prol da série. Você poderia dizer, “ah, mudanças são naturais, adaptar significa justamente não traduzir ao pé da letra”. Você está correto. Mas não é por isso que eu me irritei com as alterações. Ao mudar 95% do livro, a CBS e os roteiristas de “Under the Dome” simplesmente mandaram um belo “FUCK YOU” para os fãs do romance. ISSO me irritou.

Veja bem: quando se adapta um romance ou uma história em quadrinhos, o principal público-alvo da adaptação deve ser a fanbase do original. Exemplo: a Warner Bros. por acaso fez “Harry Potter” para pessoas completamente desinteressadas que não conheciam o livro? Não, o estúdio fez os filmes para as crianças, jovens e adultos fãs do bruxinho, que espalharam a fama da obra, conquistando novos seguidores. O canal CBS, por sua vez, foi em direção contrária (pelo menos é isso que eu espero, porque seria muita ingenuidade eles acharem que os fãs de Stephen King e de Sob a Redoma aprovariam esse açougue ao livro). A CBS ignorou completamente os fãs de Stephen King numa tentativa previsível de surfarem na mesma onda de “Lost”, “Arquivo X” e tantos outros seriados de mistério.

“Ah, mas você curte ‘Haven’, e essa série não aproveita quase nada de The Colorado Kid“.

Bom, não é exatamente verdade. “Haven”, com a exceção da protagonista da história original, basicamente adaptou quase todos os elementos do livro. A diferença entre “Haven” e “Under the Dome”, é que o primeiro respeitou o material original e criou uma mitologia em volta da proposta de King. Além disso, eu não considero “Haven” um fenômeno; é um seriado divertido, que sabe o tamanho que tem, respeita sua gênese e, em comparação a “Under the Dome”, possui poucos furos de roteiro (as famosas “plotholes”).

Apesar de minha revolta, sou mais fã da arte como um todo do que do próprio Stephen King, e estaria pronto para aceitar e me acostumar com a “adaptação” se ela fosse boa, inteligente e satisfatória. Como não possui nenhuma dessas qualidades, minha opinião só podia ser uma: “Under the Dome” não presta. Azar o meu, que preciso atualizar a ficha do seriado com as sinopses dos episódios.

“Under the Dome” parece um projeto amador que alterna entre boas e ridículas atuações; os roteiros são cheios de furos; os diálogos, em sua maior parte, são recheados de clichês capazes de deixar o telespectador morrendo de vergonha; e os personagens são vazios, inacreditavelmente burros e pouco desenvolvidos. Duvida? Alguns exemplos.

Julia Shumway: tem o marido acidentalmente morto por Barbie, mas, mesmo após descobrir isso, resolve pular na cama com o sujeito e chamá-lo de “meu love” para o resto da vida.

Linda Esquivel: a xerife substituta do falecido Duke. Em uma crise sem precedentes como essa, é preciso agir com toda a cautela e certeza do mundo. E qual é a primeira atitude dela como xerife? Recrutar Junior Rennie. Sim, o psicopata que passou uns três ou quatro episódios dando uma de “overly attached girlfriend”; um rapaz que não teve nenhum treinamento balístico; que provavelmente não conhece a Constituição e os direitos e deveres do povo norte-americano, ou que sequer fez um exame psicológico para mostrar se ele está apto ou não a manusear uma arma. Essa é a xerife de Chester’s Mill, que quando não está fazendo burradas, está sendo manipulada. Poderia ser uma ótima oportunidade de representar o público feminino. Mas não.

Dale “Barbie” Barbara: Barbie é o herói genérico e o ator não é lá essas coisas também. Há algumas cenas aqui e acolá que são cômicas, como a cena em que ele beija Julia (que está em coma, após ter sido baleada por Maxine) e solta um glorioso “eu te amo” (estranhou eu ter apontado esse momento “fofo” como cômico? Leia até o final dessa parte que você entenderá).

Big Jim: sai matando quem vê pela frente. Provavelmente assassinou metade do elenco que teve o azar de descobrir suas sujeiras (e olha que sua encarnação literária nem chegou perto disso).

De longe, o personagem mais interessante é Junior. Apesar de seu surto no começo da série, a mente do rapaz é um dos maiores enigmas da série. Foi a redoma que o enlouqueceu? Ele já era assim? Ele vai enxergar a razão e ficar contra o pai? Essas, infelizmente, são as únicas questões originais que podemos fazer sobre um personagem na série. O resto é o de sempre: Big Jim vai morrer? Barbie e Julia vão ter um final feliz? Linda vai deixar de ser boba?

Após tudo isso, você ainda pensa que estou pegando pesado na crítica? Deixe-me lembrá-lo de só um detalhe: toda a primeira temporada de “Under the Dome” se passa em apenas DUAS SEMANAS. Agora volte à parte dos personagens, e leia tudo de novo (especialmente a parte em que Barbie declara que ama Julia). Virou filme da Disney, onde o príncipe e a princesa se conhecem e se casam no dia seguinte?

E aí?

Enfim, percebo que os produtores de “Under the Dome” não só desrespeitaram os fãs de Stephen King, como também a inteligência do telespectador casual com esses absurdos na trama. Temos, por exemplo, a hilária cena do reverendo literalmente chutando o balde em chamas na casa de Duke (episódio 2), ou Junior chegando à conclusão que Angie havia ajudado Barbie a tirar Julia do hospital (episódio 12) porque sentiu gosto de cigarro nos lábios dela – o que fez o rapaz se lembrar do dia em que a viu fumando um cigarro perto de Barbie (a menina agora só fuma perto de Barbie?). Assim, os roteiristas de “Under the Dome” vão empurrando uma bola de neve cada vez maior de situações cômicas e ridículas que inacreditavelmente têm sido engolidas com afinco pelo público norte-americano.

É duro ver o nome de Stephen King como produtor executivo dessa bomba… Enfim, estamos falando do cara que roteirizou e dirigiu “Comboio do Terror”. Infelizmente ele tem esses momentos de apoiar ruindades.

Mas esta foi apenas a primeira temporada. A CBS, pelo menos, teve bom senso e percebeu que não dá para tirar o leite da vaca por muito tempo. Ao que parece, o seriado só durará até a terceira temporada. Dificilmente a qualidade aumentará, mas cá estou na esperança de que isso aconteça. Apesar de tudo, só virarei as costas definitivamente após ver o último episódio da série e constatar que a qualidade continuou tão porca quanto na primeira temporada. Azar o meu mesmo.