Um Casal Perfeito

A resenha a seguir apresenta spoilers da noveleta “Um Bom Casamento” e da adaptação “Um Casal Perfeito”, e representa apenas a opinião do autor.

Quando li Escuridão Total Sem Estrelas há alguns anos, elegi “Um Bom Casamento” como a segunda melhor história do livro (perdendo apenas para “Gigante do Volante”). Repleta de drama e suspense, a história mostrava ser impossível conhecer uma pessoa completamente, por mais íntima que ela seja, e por mais próxima que ela esteja. Lembro que nos primeiros dias que sucederam o lançamento do livro em terras norte-americanas, Stephen King respondeu a algumas perguntas acerca da obra; dentre elas, se haveria algum filme no horizonte baseado em uma das histórias. King respondeu que já possuía um roteiro prontinho de sua autoria baseado em “Um Bom Casamento”. Quase quatro anos se passaram até que o texto finalmente se transformasse num longa-metragem. Será que valeu a pena esperar?

Para começar, “Um Casal Perfeito” não é um filme ruim. Longe disso. Mas simplesmente não aproveita todo o potencial da história. Como isso é possível, visto que é o próprio Stephen King, criador da trama, que assina o roteiro? Bom… vamos apenas lembrar que King também foi o responsável pelos roteiros de pérolas como “Sonâmbulos” e “Comboio do Terror”, e de outros filmes medianos como “A Hora do Lobisomem” e “Olhos de Gato”. Claro que ele adaptou magistralmente Cemitério Maldito, mas como há mais “foras” do que “dentros”, dá para perceber um certo padrão nas investidas cinematográficas dele.

O que estou querendo dizer é que King nunca teve a mesma habilidade à frente de projetos cinemáticos ou televisivos. Quase todas as suas empreitadas (como a série “Kingdom Hospital”, a minissérie “Rose Red: A Casa Adormecida” e o telefilme “Desespero”) não conseguiram alcançar o mesmo sucesso que, por exemplo, os filmes de Frank Darabont ou de Rob Reiner. “Um Bom Casamento”, que seria a penúltima tentativa de King escrever um roteiro para cinema (até hoje), é outro exemplo.

Com mais de uma hora e quarenta de duração, o filme peca por atropelar passagens importantes da história original se aproveitar de “sustos” fáceis, alongando-se além do necessário. A direção da cena mais importante da história, quando Darcy descobre a caixinha secreta do marido com a identidade de uma de suas vítimas é tratada rapidamente e sem muito suspense. A revelação é preterida em favor da interpretação de Joan Allen.

“Um Casal Perfeito” é um suspense tímido. Não que eu vanglorie sangue e carnificina gratuita nos filmes (embora eu me divirta com alguns slashers de tempos em tempos), mas como os assassinatos de “BD” nunca são mostrados “ao vivo” (como a poderosa cena do garotinho em “Doutor Sono”, de Mike Flanagan), o filme passa a impressão de que ou está com medo de mostrar o vilão matando uma de suas vítimas, ou quer tratar a coisa como um documentário e não como ficção.

Além disso, as motivações e origem do antagonista são só arranhadas superficialmente. O filme deixa esses assuntos de lado, e passa a dar mais importância às alucinações de Darcy com um âncora de TV; Darcy dando longos passeios pela casa esperando ser atacada; Darcy sonhando com o marido a matando, e por aí vai… São sequências que se arrastam e se provam inúteis, especialmente quando Bob Anderson revela que não tem a menor intenção de machucar a esposa, preferindo torturá-la psicologicamente.

Entretanto, nem todos os pontos negativos são culpa do roteiro de King. Quando se escreve sobre um longo casamento de sucesso, o leitor imagina o casal com a maior química possível. No caso desta história, este é o ponto que faz ela ser tão assustadora. Portanto, um requisito imprescindível para a adaptação seria achar um casal de atores que gerasse uma boa química diante das câmeras. Joan Allen e Anthony LaPaglia são ótimos atores, mas, pessoalmente, não consegui enxergá-los como um casal. Individualmente, eles convencem em seus respectivos personagens, mas quando estão juntos em cena, é difícil acreditar que a dupla que interpretam passou 25 anos casada. Para mim, é Stephen Lang (o detetive aposentado Holt Ramsey) que traz o melhor em todo filme, mesmo que sua participação se resuma aos últimos 15 minutos do filme.

No fim das contas, “Um Casal Perfeito” não é uma adaptação ruim, apenas não é tão boa quanto poderia ser (e olha que tinha totais condições). Vale a pena assistir pela curiosidade de saber como ficou, mas não se surpreenda se sentir preguiça durante e depois do filme.