Sob a Redoma

A resenha a seguir não contém spoilers e reflete apenas a opinião do autor.

Disse um certo falecido filósofo do automobilismo, mais ou menos assim: “Nós somos insignificantes. Por mais que programemos nossas vidas, a qualquer momento tudo pode mudar”.

E quando uma redoma gigantesca cai sobre a inofensiva cidade de Chester’s Mill, seus habitantes aprendem esta amarga lição.

Stephen King disse em uma entrevista de divulgação que todos nós somos como os personagens de seu livro. Afinal, estamos presos sob nossa própria redoma. O fato da Terra ser enorme, sadia e confortável nos deixou acomodados e despreocupados a ponto de chamarmos esta nossa prisão galáctica de lar.

Para os 2 mil habitantes de Chester’s Mill que veem seu espaço no mundo ser consideravelmente reduzido, tal fato não poderia ser mais verdadeiro. Mas poderão eles se acostumar com seu novo “lar”?

Esta é a proposta deste romance lançado em 2009: o que um grupo considerável de pessoas faria se fosse completamente confinado do mundo? Quando a redoma cai, percebemos que não há como sair ou entrar de Chester’s Mill. O que quer dizer que todo os suprimentos de ar, água potável e alimentos cedo ou tarde vão acabar. Mas como a história é escrita por Stephen King, a desgraça não demora muito a acontecer.

A história inteira se passa num período de mais ou menos uma semana (e louvado seja Stephen por escrever um romance de quase mil páginas abrangendo tão pouco tempo), mas é o bastante para construir um circo de horrores inacreditável. Mas está enganado quem pensa que este circo é provocado pela redoma; não, são os próprios habitantes da cidade que se tornam a maior ameaça na armadilha ao ar livre.

De um lado temos o ex-combatente do Iraque Dale Barbara, também conhecido como “Barbie”, Julia Shumway (a dona do jornal local), Joe Espantalho (um inteligente garoto que saca tudo de computadores) e Rusty Everett (um dos médicos locais), só pra citar alguns das centenas de personagens criadas por King neste romance. Do outro lado, temos Big Jim Rennie (o maior vilão da história), um político sujo que engana a própria alma, justificando que seus atos horrendos são obras de Deus; Jim Rennie Junior, o filho de Big Jim, que é um garoto-problema, e um dos primeiros a causar desgraça; e Peter Randolph, chefe de polícia e braço direito de Rennie.

Falar dos personagens aqui é loucura, são mais de duzentos  Portanto, o mais simples é mostrar as motivações de cada lado (sim, pois a cidade logo se divide). O lado de Dale tenta desesperadamente descobrir a origem da redoma e um modo de se libertarem dela. O lado de Rennie, provavelmente um dos políticos mais ambiciosos da literatura, deseja que a redoma fique exatamente onde está, pois assim o vilão pode instalar medo e caos nas pessoas, que, por natureza, procurarão um líder para guiá-las. E quem melhor do que Big Jim Rennie?

É certo dizer que King preocupa-se mais com os personagens durante a história. A redoma é secundária. Sua presença é notada apenas no primeiro ato e no fim do terceiro, onde descobrimos sua origem e o porquê dela estar lá. E esta, felizmente, é uma das melhores características de King: focar no medo das pessoas ante o sobrenatural e desconhecido. O que se segue é uma orquestra de desastres, e nada mais. Não há muita felicidade em Chester’s Mill após a redoma; apenas sofrimento e desespero.

É um livro perfeito? Não, não é. Para começar, o suposto herói do livro, Dale Barbara, não possui muito volume. Por seu histórico de ser um combatente no Iraque, poderíamos ter algum flashback que mostrasse mais sobre o caráter do personagem (bem, temos um, mas é bastante simples e rápido, para não dizer insuficiente). Não temos um legítimo herói salvador, apenas um cara normal que se vê forçado a sobreviver. O mesmo acontece com a maioria dos heróis, alguns são mais interessantes, mas não passam disso. King nunca dá um passado para eles, e isso acaba prejudicando um pouco se a intenção dele era fazer o leitor torcer pelos mesmos. A evolução da maioria dos personagens é lenta ou quase nula, mas é óbvio que o tempo que passamos com eles (de mais ou menos uma semana) justifica, então devemos dar um desconto.

Já do lado vilanesco da coisa, a história é completamente diferente. Por mais que tenhamos uns dois ou três vilões de verdade (e dezenas de capachos), isso é o bastante. Big Jim Rennie entra facilmente para a galeria de vilões inesquecíveis de King. O cara é um filho de uma p… Cínico, esperto e ambicioso (MUITO ambicioso), James Rennie fará absolutamente qualquer coisa para ter sucesso em seus planos, e ele vai atropelar qualquer um que estiver na frente. Rennie basicamente capitaneia a história, pois o pessoal “do bem” age de acordo com suas maquinações. Por isso, eu posso dizer que Rennie é o melhor personagem do livro, e com folga.

Como eu disse, são muitos personagens; não dá para falar de todos. Portanto, prefiro destacar o mocinho e o vilão da história, e deixar para você conhecer todos os outros.

Apesar de ser um livro extenso, eu pouco notei embromação por parte de King, o que é bom, porque com 950 páginas a história precisa ter algum sentido, ou se tornará maçante ao leitor. A trama segue um ritmo preciso, raramente parando para enrolar, ou seja, (quase) tudo tem um motivo de ser neste livro.

Quanto ao final, não vou mentir; talvez seja um dos piores da carreira do autor. O modo como a história se resolve é bastante simples e anticlimático para a proposta grandiosa do livro. De qualquer modo, se resolve. Fãs de King que temem finais abertos podem ficar despreocupados. Absolutamente tudo é explicado e devidamente finalizado. Posso dizer que não tenham medo de atravessar as 950 páginas de Sob a Redoma. As últimas páginas podem não te agradar, mas a jornada até o final vale todos os centavos que você gastou com o livro.

Sob a Redoma é um dos melhores trabalhos de Stephen King, seja pelo seu tamanho astronômico, pela vasta gama de personagens ou pela trama bem bolada. O romance questiona dentro e fora da grande cúpula um dilema delicado: o que podemos fazer quando temos o poder de decidir o destino de um grande número de pessoas na palma de nossas mãos?

No livro, a reposta é dada. Vamos torcer para que nunca tenhamos que descobrir na real. Porque tal resposta não parece ser nada bonita.

Artigo originalmente escrito em: 30/10/2012