Saco de Ossos

A resenha a seguir possui spoilers do livro e da minissérie e reflete apenas a opinião do autor.

Quando os nomes Mick Garris e Stephen King se juntam, tenho a sensação de que o que vem por aí é, no máximo, mediano. Não é minha culpa; a dupla me acostumou assim. A minissérie “Saco de Ossos” (última parceria entre os dois até o momento, graças a Deus), foi lançada em 2011 e não é exceção. Apesar de alguns méritos, é mais uma adaptação passável.

Ao todo, Mick Garris adaptou seis histórias de Stephen King, falhando na maioria. “Sonâmbulos”; “A Maldição de Quicksilver” (conto “A Dentadura Mecânica”); “Montado na Bala” e “Desespero” são algumas das adaptações mais fracas que já assisti. Por outro lado, seria injusto dizer que a minissérie “O Iluminado” não foi, no mínimo, aceitável. O único triunfo do diretor foi a minissérie que adaptou “A Dança da Morte”, em 1994.

Já “Saco de Ossos”, centro desta crítica, é outro fracasso no currículo de Garris. A adaptação tem muitas falhas e a primeira delas jaz justamente com o protagonista. Por mais que eu adore Pierce Brosnan, percebe-se que ele não conseguiu se encaixar muito bem em um projeto de suspense sobrenatural. Posso estar enganado, mas acredito que esta é a primeira incursão dele no gênero. Suas reações a sustos e revelação são estranhas, e ele só parece se dar bem como Mike Noonan quando precisa ser dramático (como no início da minissérie).

Sobre o restante do elenco, Annabeth Gish interpreta a esposa de Brosnan, Jo. Ela já havia participado anos antes de “Desespero” e parece ter agradado o diretor Mick Garris. Nesta minissérie, ela não tem exatamente muito tempo de cena, mas entrega o feijão com arroz que o roteiro invoca. Melissa George e Caitlin Carmichael interpretam, respectivamente, Mattie e Kyra Devore, mãe e filha. São duas boas escolhas de Garris. Ambas têm ótima atuação, e estão fisicamente bem próximas de suas contrapartes literárias.

Já a galeria de vilões também foi bem escalada, Deborah Grover como a irritante Rogette Whitmore; William Schallert dá vida ao inescrupuloso Max Devore; e Anika Noni Rose (que dublou a princesa Tiana em A Princesa e o Sapo) interpreta a vingativa Sara Tidwell; todos produzem boas atuações e percebe-se que se esforçam para dar o máximo com o roteiro pobre e apressado que lhes foi dado.

Apesar de contar com quase três horas de duração, a minissérie sofre com diversas ausências de cenas importantes do livro. O que era para ser uma boa história de fantasmas com excelentes efeitos especiais (a dramática luta entre Mike e Rogette no livro é memorável, e aqui foi substituída por uma troca de tapas e unhadas, que culmina numa morte fraca e bizarra), se torna um roteiro mutilado, apressado e entediante em sua maior parte.

No livro, Mike demora para perceber que a presença que ronda sua casa do lago é ninguém menos do que Sara Tidwell, e não apenas sua esposa. Na minissérie, isso é resolvido extremamente rápido. Tudo bem que Garris está adaptando um livro com mais de 400 páginas, mas a quantidade de cenas decepadas do romance não é brincadeira. Os interessantes flashbacks que mostravam os antepassados dos personagens afogando suas filhas (no livro) foram adaptados de forma apressada e nem um pouco assustadora. Eu me lembro de Mick Garris dizendo que não dava para transformar Saco de Ossos em um filme de 120 minutos para o cinema… Ele só esqueceu de dizer que tampouco seria capaz de fazê-lo com 40 minutos adicionais para a televisão.

Cheguei à conclusão de que o livro peca onde a minissérie ganha, e vice-versa; enquanto me encontrei facilmente entediado com as passagens do romance que falam de assuntos jurídicos, me satisfiz absolutamente com a parte sobrenatural. Ironicamente, ou não, a minissérie pouco tenta se alongar no quesito jurídico, apresentando uma única cena e poucas menções ao assunto. Entretanto, quando se trata de produzir suspense, a adaptação escorrega. Os sustos fáceis e gratuitos de Garris me fizeram lembrar dos inúmeros gatos jogados pela janela, e de tantos clichês conhecidos de películas do gênero slasher.

É realmente difícil entender por que King fica mais do que feliz em conceder os direitos cinematográficos de suas obras a torto e a direito para Mick Garris. Enquanto isso, temos de nos contentar com poucas adaptações assinadas por talentos como Frank Darabont e Rob Reiner. É realmente irritante ver um péssimo diretor acabando com diversas histórias boas do autor, quando poderia ser melhor adaptadas por pessoas com mais competência.

Mas meu conselho (vai entender…) é que você assista. Seja para ver Brosnan levando sustos baratos, falando com as paredes e correndo ao som de músicas pop; seja para saber como ficou a minissérie (todos têm direito a uma opinião própria); seja para ver a primeira adaptação de uma obra de Stephen King da década de 10 dos anos 2000. Enfim… assista. Se você for estudante ou profissional da área de cinema, melhor ainda, porque “Saco de Ossos” é praticamente um manual de como não adaptar uma história de outra pessoa; é realmente um saco.

Artigo originalmente escrito em: 20/12/2011