Rose Madder

A resenha a seguir contém spoilers e refletem apenas a opinião do autor.

Rose Madder foi um romance lançado em 1995 cuja premissa já havia sido usada de forma “mais coadjuvante” em Eclipse Total: uma dona de casa que sofre nas mãos do marido violento, e que descobre uma força interior que lhe permite revidar.

Enquanto em Eclipse Total o sobrenatural era ínfimo, em Rose Madder a coisa muda de figura. Isso, na minha humilde opinião, matou a história.

A trama começa com Rose Daniels sofrendo um aborto após ter sido espancada pelo marido, Norman, um policial psicótico. Assim, a vida dela continua por 14 anos, até que, certo dia, Rosie enxerga uma gota de sangue sua num lençol. A visão finalmente faz a mulher “acordar”.

Morta de medo, mas não o suficiente para continuar sob a ameça de Norman, Rosie decide fugir levando apenas a bolsa e o cartão de crédito do marido. É a partir daí que a história, já interessante, começa a andar de verdade. O ponto alto do livro é a perseguição de Norman a Rose, que se instala numa cidadezinha e tenta começar uma nova vida com a ajuda de um abrigo feminino.

Enquanto Rose tenta se reerguer e esquecer o marido, Norman começa uma perseguição implacável procurando pistas do paradeiro da esposa, o que inclui torturar e matar pessoas. O vilão psicopata-lunático, que havia sido deixado de lado desde Annie Wilkes, retorna aqui para alegria geral dos fãs de King, que cria mais um bom personagem louco e perigoso.

Entretanto, diferentemente do que acontece durante as desventuras de Annie Wilkes e Paul Sheldon, aqui temos o elemento sobrenatural na forma de um quadro misterioso cujo título é “Rose Madder” (que também é o nome de uma tonalidade do vermelho). O que poderia ser uma ótima história “pé no chão” de perseguição e abuso matrimonial, esbarra no fantástico quando Rosie é “chamada” pelo quadro dentro de uma loja de penhores e o compra.

O quadro apresenta uma moça de costas usando um vestido vermelho (da tonalidade rose madder) e um bracelete de ouro, olhando para um templo grego ao longe. Quando a sombra de Norman se aproxima, Rosie percebe que o quadro não é comum. Logo ela adentra o mundo onde vivem Rose Madder (a moça de vermelho) e sua lacaia Dorcas, que dão a Rose uma missão muito bizarra.

Se por um lado o sobrenatural estraga a evolução do suspense natural, por outro gera um dos melhores destinos concedidos a um vilão criado por King. Por tabela, cria um reflexo entre o vilão que habita o mundo de Rose Madder e Dorcas, e o próprio Norman Daniels.

Norman também é um vilão memorável e inteligente. O patife usa seus talentos como policial para refazer todo o caminho percorrido por Rosie (embora às vezes o modo como ele chega à conclusão de um raciocínio beire ao fantasioso), e não poupa quase ninguém que ouse ficar no seu caminho. Outro traço interessante de Norman é o modo como ele encara o mundo. Para ele, todas as mulheres são vagabundas, e todos os homens são homossexuais. Por si só, isso já garante umas boas risadas quando ele faz seus monólogos internos insanos. Norman é doido, inteligente e preconceituoso; uma bela receita para um vilão desprezível.

Rose é o outro lado da moeda; uma personagem inicialmente submissa, e que, com o virar das páginas, vai se tornando cada vez mais forte e feliz longe do marido. Um ponto bastante original, que não influi muito na história, mas que gostei bastante, foi colocar Rose como narradora de audiobooks. Eu já li mais de 60 livros de King e esta é a primeira vez que me deparo com uma profissão tão diferente concedida a um de seus protagonistas; sempre fui acostumado a personagens escritores, médicos, professores… De qualquer forma, Rose fica mais forte, conhece um rapaz de boa índole e recomeça a viver. Tudo isso vai aprontando o palco para o que será mais tarde seu duelo final contra Norman Daniels.

Como eu disse, eu não fui muito com a cara do aspecto sobrenatural do livro, e tenho certeza absoluta que a história teria funcionado perfeitamente sem isso (e talvez ficasse até melhor). Se não fosse pelo duelo final entre Rosie e o marido, eu teria desprezado completamente a inserção do gênero.

Outra coisa que detestei foi o epílogo. Completamente desnecessário. King poderia ter terminado o livro no último capítulo, e creio que a história teria terminado docemente. Mas o epílogo aconteceu, e ele é totalmente bizarro e sem sentido. Rose Daniels e Rose Madder aparentemente se tornam a mesma pessoa, Rosie acaba “contraindo” a fúria de Madder e tem de aprender a conviver com isso e se controlar, caso contrário, provavelmente esquartejará todos que conhece e ama — sim, eu tampouco entendi a necessidade dessa adição.

Apesar de tudo, Rose Madder é um dos melhores trabalhos de King dos anos 1990 (e até mesmo de sua carreira). É um livro repleto de qualidades (e de alguns defeitos) que merece ser lido por aqueles apaixonados por uma boa dose de suspense e personagens excelentemente construídos; vale muito a pena. Mas repito: por não saber a hora de parar, King nos privou de um romance que poderia ter sido dez vezes melhor.