Revival

A resenha a seguir NÃO contém spoilers e reflete apenas a opinião do autor.

“É assustador demais. Eu não quero mais pensar nesse livro”, disse Stephen King alguns meses antes do lançamento de Revival.

O Mestre do Horror Moderno assustar-se com algo que ele mesmo escreveu é bastante raro. Lembro-me de que ele falou que isto só aconteceu ao terminar de escrever Cemitério Maldito (Pet Sematary, 1983). Segundo King, este livro foi tão assustador, que ele enfiou o manuscrito numa gaveta, planejando nunca mais “libertá-lo”.

Como Cemitério Maldito é um dos meus livros favoritos de King, invariavelmente fiquei empolgado com o que Revival tinha a oferecer após o testemunho do autor. O livro é relativamente curto (pouco mais do que 400 páginas), e é possível terminá-lo rapidamente (levei seis dias, mesmo ocupado). Apesar disso, será que todo esse barulho que King fez acerca da obra se justifica?

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista da história, o livro traz uma proposta parecida com a de Cemitério Maldito: “O que há depois da morte? Deveríamos tentar descobrir?”. Apesar de partilhar de alguns temas, Revival toma um caminho diferente. Centrada mais em religião, a obra pega emprestado elementos de histórias do horror gótico, como Frankenstein, de Mary Shelley; as crônicas aterrorizantes e insanas de H.P. Lovecraft; e o conto “O Grande Deus Pã”, de Arthur Machen (uma grande inspiração, de acordo com King), transformando Revival num “Moderno Prometeu Literário”.

A trama gira em torno, basicamente, de dois personagens. Um reverendo chamado Charles Jacobs, e um garotinho chamado Jamie Morton. Quando uma série de eventos trágicos ocorre na vida destes personagens através dos anos, uma obsessão perigosa começa a nascer e crescer, tornando-se a base que sustenta e direciona a trama do livro. Tais personagens, bem como suas respectivas evoluções, são muito bem construídas ao longo da trama, e a relação entre eles, pelo menos no começo da história, lembra muito a amizade entre Ted Brautigan e Bobby Garfield, de Hearts in Atlantis.

Outra coisa excelente sobre o livro é o método como King resolve contar a história. Como já mencionado, temos Jamie narrando os fatos. Entretanto, ele o faz de uma forma não linear, indo e voltando no tempo quando necessário, deixando a narrativa como uma espécie de quebra-cabeças fácil que vai se montando aos poucos; algo que combina com o tom do livro, que vomita mistério atrás de mistério.

Mas vamos voltar à questão do terceiro parágrafo… o livro justificou o “medo” de King? Em minha opinião, sim. Claro que ele também pretendia vender seu peixe quando falou aquilo, mas é a mais pura verdade que Revival tem um começo arrasador e muito interessante, e um final aterrorizante e muito chocante – um que não se via nas obras dele há muito tempo. Isso, por si só, já compensa a ponte que se estabelece entre esses dois momentos.

Cheio de referências ao mundo da música e da ciência (que eu confesso não ter entendido bulhufas), o meio do livro é um elo falho que se estende como algo tirado dos péssimos trabalhos de King, como Os Estranhos e Insônia. Claro, nem tudo está perdido nesta fase da história (na verdade, há mais coisas boas do que ruins, mas as ruins poderiam ter sido deixadas de fora ou amenizadas), mas perdi as contas de quantas vezes divaguei enquanto King contava como se toca uma determinada música num violão, ou quantos volts possui um trovão. Talvez isso tenha me chateado porque li em inglês. Talvez, quando ler a versão traduzida da editora Suma de Letras no ano que vem, eu entenda e saboreie melhor o que King quis dizer. Vai saber…

Em resumo, Revival é uma história sobre ciência contra a fé, e o que acontece quando estas duas coisas se misturam. É uma história que se mantém sólida até a última palavra e se destaca por sua complexidade filosófica e ousadia que ecoa pelas 400 páginas de sua totalidade.

Meu veredito final é que Revival é um livro que lembra, e muito, os anos dourados de King durante a década de 1970 e 1980 (embora jamais se iguale). É um de seus melhores trabalhos no século XXI e com certeza traz um dos finais mais arrepiantes de toda sua carreira (e olha que eu concordo quando dizem que King não sabe finalizar muito bem boa parte de seus livros), que certamente deve deixar o leitor ponderando a respeito por um bom tempo; característica exclusiva de uma história que foi contada com qualidade. Vale muito a pena.

Nota final: 8