O Iluminado

A resenha a seguir possui spoilers do filme e do livro e reflete apenas a opinião do autor.

“O Iluminado” é uma das adaptações mais polêmicas baseadas em um trabalho de Stephen King. O autor, que não costuma ligar tanto para a qualidade dos filmes que saem de suas obras contanto que os cheques possam ser descontados, já falou diversas vezes o quanto considera esta película “fria”. Entretanto, muitos discordam da opinião de King. Querendo ou não, a obra de Kubrick é um dos maiores legados do gênero do horror. Então… quem tem a razão? Kubrick ou King?

Provavelmente o detalhe que decide tal questão jaz em qual dos dois artistas é o seu favorito. Eu li o livro antes de ver o filme, e como fã de King, compartilho da opinião do autor: “O Iluminado”, como adaptação, é fraco. Isto que dizer que o filme é ruim? Muito pelo contrário.

Stanley Kubrick aparentemente tinha um grande e grave problema ao adaptar os livros que lia: ele não ligava nem um pouco para a visão original do autor. Se concordasse com ela, muito bem, se não, ele não teria a menor cerimônia em tomar a história para si e transformá-la totalmente. O próprio King chegou a escrever um roteiro mais fiel ao livro, mas acabou sendo rejeitado por Kubrick, para completo desgosto do escritor.

Não acredita? Veja o que falou Anthony Burgess, autor do romance Laranja Mecânica, que Kubrick adaptou em 1971:

“O livro pelo qual sou mais (ou apenas) conhecido, serviu de inspiração para um filme que pareceu glorificar a violência e o sexo. O filme confundiu os leitores do livro quanto ao tema que aborda. Este mal-entendido vai me perseguir até o dia de minha morte. Eu não deveria ter escrito esse livro, pelo perigo desta má interpretação”.

O que faz um autor repudiar sua própria obra-prima devido a uma adaptação dela? Se Kubrick foi ignorante ou egoísta, nunca saberemos. O que podemos entender é que o polêmico diretor não gostava muito de se ater à opinião dos outros, mesmo que esse “outro” fosse o dono da ideia original que ele resolveu tomar para si.

Claro, isso era um direito dele. Cheques foram passados e direitos foram comprados. Porém, apesar deste detalhe, ele não poderia esperar que os primeiros fãs de Stephen King, cuja fama ainda era recente, aceitassem isso alegremente.

As diferenças entre livro e filme são gritantes. Apenas outras duas adaptações seguiram o mesmo caminho (“O Passageiro do Futuro”; “O Sobrevivente”), e nenhuma delas colheu bons frutos. “O Iluminado de Kubrick é a exceção, porque apesar de teimoso, Kubrick era um gênio perfeccionista, chegando ao ponto de fazer seus atores chorarem de desespero depois de trocentas tomadas.

Enquanto o livro de King pode ser classificado como terror sobrenatural, a adaptação de Kubrick foca mais no suspense psicológico. Limitado pela tecnologia da época (e também pelo orçamento concedido pela Warner), Kubrick optou por atalhos e mudanças que transformaram a história totalmente.

A princípio, o filme segue bem o livro, mas não demora para que Kubrick mande King às favas e comece a dirigir os rumos da história por si mesmo. O livro de King vai construindo uma atmosfera fantasmagórica enquanto o pequeno Danny Torrance vai confrontando os fantasmas do Hotel Overlook. Isto é intercalado pelos momentos de revelação, em que o pai instável do menino vai cavando cada vez mais fundo no passado do lugar assombrado.

O filme, entretanto, foca em outras motivações: paranoia e loucura. Na visão de Kubrick, o Hotel Overlook funciona mais como uma frigideira cozinhando os miolos de Jack Torrance lentamente. No romance, os espíritos malignos do hotel desejam desesperadamente os poderes do pequeno Danny. Para tanto, eles começam a influenciar o patriarca aproveitando-se de suas fraquezas. Na versão de Kubrick, o catalisador para a loucura do homem é o isolamento e a inconformidade de Jack com sua vida de fracassos. Nunca fica muito claro se os fantasmas do Overlook de Kubrick são reais, ou parte do imaginário insano de Jack. É uma decisão que gera uma extensa bifurcação; o filme vai por um lado e o romance por outro.

Kubrick, todavia, não alterou somente a trama de “O Iluminado”; ele também não poupou os personagens e suas personalidades. O Jack do livro é um homem que se esforça para vencer o alcoolismo. Ele sente remorso por ter machucado o próprio filho. Já o Jack do filme é um homem insensível e irritado, que muito cedo começa a apresentar sinais de psicopatia, o que impede qualquer transformação do personagem. No livro, Wendy Torrance é uma mulher controlada, protetora e forte. No filme de Kubrick, ela se tornou fraca, submissa, irritante e histérica.

Quanto ao casting, não há nada a reclamar… Analisando o filme pela proposta que ele oferece, Shelley Duvall traz uma boa atuação repleta de histeria e medo. Scatman Crothers também está excelente (méritos de Nicholson, que foi quem sugeriu o ator). O pequeno Danny Lloyd não compromete e é uma boa surpresa para alguém de sua idade (apesar de nunca mais ter atuado em nenhum filme, exceto numa pontinha sem importância em “Doutor Sono”). Jack Nicholson dispensa comentários.

Apesar do sucesso de “O Iluminado”, Nicholson ficou tão traumatizado com o filme, com as intermináveis tomadas e com o perfeccionismo de Kubrick, que decidiu que não participaria mais de adaptações baseadas em obras de Stephen King. Dez anos depois, este foi basicamente o argumento que ele usou para rejeitar o papel de Paul Sheldon, em “Louca Obsessão”.

Em conclusão, o único modo de apreciar “O Iluminado” de Kubrick é esquecer que você é fã de King e que adorou o livro. Se conseguir a proeza de assisti-lo seguindo esses critérios, possivelmente você gostará do filme e entenderá porque é considerado um dos clássicos do horror. Afinal de contas, por mais que ignore suas raízes, o filme tem bastante qualidade e improvisa bastante o que a tecnologia não poderia conquistar em 1980. Cenas como o buraco na porta feito a machadadas; a perseguição no labirinto; as gêmeas no corredor; o elevador de sangue; e tantas outras, marcaram a história do cinema. Isso não pode ser conquistado por qualquer filme.

Eu realmente gostaria de conseguir assistir ao filme ignorando que gostei do livro. Posso reconhecer ser um grande filme (consta no IMDb.com como o 63º melhor filme já feito na história), mas, sinceramente, não tem jeito. Não gostei do modo como o diretor tratou a obra original, e tampouco das mudanças feitas.

Dezessete anos mais tarde, King resolveu puxar as mangas e fazer uma adaptação do livro com Mick Garris (nome que provoca calafrios em boa parte dos fãs do autor). O resultado foi 90% mais fiel ao romance, mas na maioria dos outros quesitos, a adaptação foi apenas “decente” (o que deverá ser futuramente tratado numa crítica da minissérie).

Deste modo, “O Iluminado” de Stanley Kubrick, para os fãs de Stephen King, deve servir apenas como curiosidade; seja para conferir a excelente atuação de Nicholson, a perturbadora trilha sonora, a grande direção de Kubrick ou a bonita fotografia do filme. Apesar de tudo, é inegavelmente um clássico. Pelo bem de sua cultura cinematográfica, vá assistir se ainda não o fez.

Artigo originalmente escrito em: 17/07/2012