O Apanhador de Sonhos

A resenha a seguir possui spoilers do filme e do livro e reflete apenas a opinião do autor.

Em 2003, a Castle Rock Entertainment lançou sua sétima produção baseada em uma história de Stephen King. Com um elenco não tão estelar, com a exceção de Morgan Freeman, e talvez Tom Sizemore, o filme não agradou muito ao público. Confesso que quando vi o filme, antes de ler o livro, pela primeira vez, achei-o divertido.

De qualquer forma, mais ou menos um ano depois, quando finalmente pus as mãos no livro, fiquei bestificado ao ler a última palavra. Fiquei muito feliz, pelo menos até metade da história, porque achei que o filme seguia à risca as pegadas do romance, mas me enganei. Óbvio que uma adaptação cinematográfica exige certas mudanças. Entretanto, o choque que tive ao constatar que a adaptação simplesmente chuta a metade final do livro para escanteio e resolve inovar, caminhando com as próprias pernas, foi grande. Ao brevemente meditar a respeito, percebi que as mudanças tinham sido para a pior. O final esquisito contribui, e muito, para moldar minha opinião, mas isso será debatido mais adiante.

Comecemos por um dos meus tópicos favoritos: os atores. Para analisar cada um, é necessária também uma comparação paralela com os personagens que eles representam. Morgan Freeman, por exemplo, é um completo desastre. Não pela sua atuação, longe disso (mas também não foi seu melhor trabalho como ator), mas pela caracterização do personagem. Abe Curtis simplesmente não é um personagem que conseguiu se encaixar perfeitamente com o ator. Nota-se isso quando ele deveria soar paternal em relação ao seu subordinado, Owen, o que funciona espantosamente bem no livro, mas não no filme, porque não há muita química entre Tom Sizemore e Freeman.

Sizemore, por sua vez, apresenta um nível regular de carisma e seu personagem constantemente nos deixa confusos sobre sua lealdade a Curtis. Até mesmo na cena em que ele está transportando Duddits e Henry, ficamos na dúvida de que lado ele está (até que sejamos informados de que há um transmissor plantado por Curtis na arma dele). Sizemore faz bem seu papel, que se resume a uma espécie de “joão-bobo”, sendo socado de um lado para o outro, sem saber para onde vai.

Se por um lado Morgan Freeman pareceu deslocado em seu papel, Jason Lee foi completamente Beaver. De longe, meu personagem favorito, tanto no livro, quanto no filme. Fiquei realmente satisfeito com o desempenho do ator. Jason Lee é conhecido por muitos como o protagonista do extinto seriado de comédia “My Name is Earl”, e vemos que, apesar de se tratar de um filme de terror sci-fi, o alívio cômico, na forma de Beaver, funciona. É extremamente importante que nos indentifiquemos com os quatro amigos, pois eles são a base do filme, e se um deles houvesse sido mal construído, provavelmente a amizade entre eles pareceria artificial. Beaver é o palhaço do grupo, e sem dúvida o mais leal dos quatro. Um dos pontos positivos do filme foi ter dado mais destaque ao personagem do que no livro, mesmo que Beaver tenha sido o primeiro a morrer. Seu mérito é bem concedido na icônica cena do banheiro, e graças ao roteiro e à atuação de Lee, sentimos muita dó quando Beaver se sacrifica para dar tempo a Jonesy para escapar da “fuinha de merda”.

Damian Lewis (de “Homeland”) faz Jonesy, o personagem principal do filme. Por natureza, Jonesy é um homem tranquilo, mesmo após o acidente que quase o matou. É evidenciado que Jonesy é o líder do grupo; ele também pode ser considerado o mais altruísta. Ao parar para ajudar um homem com uma estranha saliência estomacal e trazê-lo para sua cabana, Jonesy nem imagina que pôs em movimento as mortes de Beaver e Pete. Jonesy não é lá um papel revolucionário e marcante como Don Corleone, na verdade é muito simples, e Damian Lewis o faz satisfatoriamente. Há um bônus, entretanto. O personagem de Lewis é possuído por um alienígena sobrevivente do ataque que Curtis lançou à nave-mãe que está caída na região. Os produtores optaram por não colocar qualquer tipo de maquiagem em Lewis, deixando o Sr. Cinza/Gray à cargo do próprio ator. É quando interpreta “Gray”, que Lewis mais se destaca.

Pete e Henry são interpretados por Timothy Olyphant e Thomas Jane, respectivamente. Enquanto um representa a ingenuidade do grupo, o outro representa a insegurança. No começo do filme, Henry tenta se matar, mas é parado por seu elo sobrenatural com Jonesy. Durante todo o filme, nada mais faz do que fugir, até ser finalmente capturado por Curtis. Algo que realmente me deixa com aquele sentimento de injustiça, pois o personagem não tem 1/5 da coragem de Beaver, e acho que seus destinos deveriam ter sido invertidos. A única utilidade de Henry no filme todo é levar Duddits para salvar o dia. Thomas Jane, que entraria em cena muito melhor em “O Nevoeiro” e “1922” tem uma atuação apagada e por vezes cômica. As cenas em que ele “interage telepaticamente” com os outros personagens é no mínimo tão constrangedora quanto as cenas de Morgan Freeman.

Olyphant, por outro lado, tem a missão simples de interpretar Pete, um personagem que começa a se tornar alcóolatra, mas que se redime por não se render às malícias do Sr. Cinza (e pagando caro por isso). Depois de Beaver, eu diria que Pete é o personagem com mais carisma. Ele é aquele tipo de cara humilde que quer apenas encontrar uma garota para se apaixonar e ter uma vidinha pacata, mas feliz. Também dá muita pena de vê-lo morrer, coisa que eu não sentiria com Henry ou Jonesy, justamente os que sobrevivem.

Por fim, vem Donnie Wahlberg, o irmão de Mark Wahlberg, ex-New Kids on the Block (é, eu tinha que falar), como Duddits, o “menino-grande especial”. É ele quem possui poderes sobrenaturais que passa a dividir com Jonesy e a turma após eles o terem salvo de ser humilhado por valentões na infância. O maior crédito para a caracterização de Duddits vai para o departamento de maquiagem, que o faz parecer realmente doente. Não que Wahlberg faça um trabalho ruim.

A trilha sonora é orquestrada por James Newton Howard, que comete o erro de compor faixas de ação para um filme de ficção-científica. De fato, as músicas são boas e têm um certo suspense, mas depois de um certo tempo ela se torna enjoativa, sem falar deslocada. Se a trilha tivesse servido para um filme de ação que tenta ser uma ficção científica, Howard teria sido mais feliz no resultado final.

Eu li O Apanhador de Sonhos em 2009, portanto acho que não poderia me lembrar dos pormenores do livro para poder compará-los ao filme. Felizmente, do mais importante eu lembro. Então, vamos às comparações (não muitas, mas principais).

Primeiro, há a apresentação dos quatro amigos no começo do livro que se mantém fiel até certo ponto (sem prejudicar nas mudanças). Na época em que lia, praticamente passava o filme em minha cabeça. Temos o surgimento de McCarthy, o homem infectado pelo vírus alienígena; Beaver e Jonesy vs. a fuinha de merda; o acidente de Henry e Pete. E então tudo para. A partir desta parte, tudo o que você vê no filme é uma modificação bizarra do livro.

A perseguição de Abe em seu helicóptero é simplesmente entediante, embora a versão no livro (em um hummer) não esteja muito atrás. O Sr. Cinza também não parece ter qualquer necessidade física ao possuir Jonesy. No livro, temos uma das passagens mais cômicas quando o Sr. Cinza, no corpo de Jonesy, tem um acesso de diarreia. O livro também se importa em nos contar os efeitos que o vírus alienígena tem nos humanos, que, curiosamente, são bastante parecidos com os da influência dos Tommyknockers no livro Os Estranhos (em especial a queda dos dentes). O filme, por sua vez, nos deixa confusos, mostrando apenas o alastramento da bactéria (aquele pó vermelho) nos objetos, animais e lugares, mas sem nos informar se isso, no fim das contas, é prejudicial ou apenas um mofo inofensivo e decorativo. O que o filme faz questão de frisar é que o mais prejudicial são os ovos das fuinhas de merda, que são transportados dentro das pessoas (junto com a fuinha).

Por fim, falemos da cereja do bolo do filme; a maior mudança de todas: o final. Se no livro, Stephen King encerrou de maneira bizarra com Henry e Jonesy estrangulando o Sr. Cinza dentro da mente do alienígena, Lawrence Kasdan e William Goldman, responsáveis pelo roteiro, nos brindaram com um final ainda mais esquisito.

No fim das contas, Duddits não era um deficiente intelectual; ele era um alienígena de outra raça (uma raça boa), que veio para a Terra anos antes da invasão da raça Gray para se preparar e “tocar” um grupo de humanos que pudessem ajudá-lo quando a hora chegasse. Pior que isso só a batalha final entre o E.T. Duddits e o Sr. Gray, que ocorre na estação de tratamento de água de Derry. Na cena, Duddits envolve o Sr. Gray (agora em sua forma original, que justiça seja feita, foi muito bem desenhada) em um campo de força que o prende. O que se vê pelo lado de fora do campo beira (comicamente) a um ato sexual entre os dois alienígenas, com o Sr. Gray tentando se desvencilhar de Duddits desesperadamente antes que ele termine de se autodestruir, matando os dois.

Claro que o Sr. Gray não tem sucesso e é destruído com Duddits. O filhote de fuinha que se preparava para, literalmente, entrar pelo cano e espalhar o vírus por todo o mundo, é esmagado por Jonesy antes que possa atingir seu intuito. Jonesy olha para Henry, Henry olha para Jonesy. E assim termina o filme, de forma abrupta, me deixando com uma expressão de “WTF?”.

Sobre o destaque do filme, eu mencionaria a cena do banheiro. Sem dúvida, de todos os 136 minutos que o filme oferece, apenas esta sequência tem um autêntico suspense. É quase impossível não falar ou pensar em xingar Beaver quando ele deixa cair seus palitinhos de dente (hábito em que é viciado), e mais ainda quando ele tenta desesperadamente alcançar o último palito limpo no chão, que está completamente sujo de sangue. Enquanto Beaver aprisiona a fuinha de merda dentro da privada e tenta pegar o palito de dente, Jonesy procura a fita adesiva na garagem, na esperança de lacrar a privada (já que a fuinha é grande demais pra descer pela descarga). Temos os elementos perfeitos para uma grande cena de suspense. A criatura presa, o personagem que faz a burrada, e o outro personagem que demora para chegar ao resgate. Jonesy infelizmente chega tarde demais. Beaver se rendeu ao vício dos palitinhos e ao tentar pegá-lo, escorrega e deixa a fuinha escapar da privada. Em seguida temos a batalha de Beaver contra a fuinha e o encontro ao vivo de Jonesy com o Sr. Gray. É, praticamente, uma sequência perfeita de suspense.

Na minha concepção, “O Apanhador de Sonhos merece um 6. Apesar de ser divertido, a quantidade de falhas é muito superior à quantidade de acertos. Quem assiste ao filme pela primeira vez poderá ou não gostar (como eu), mas com certeza estranhará após ler o romance, que, embora não seja lá o melhor trabalho de King, continua superior à adaptação. Como eu disse antes, se tivessem se esforçado e trabalhado duro na metade final do filme, “O Apanhador de Sonhos” tinha tudo para ser uma ótima adaptação. É uma pena que apenas algumas cenas memoráveis não façam a fama ou tornem um filme excelente.

Artigo originalmente escrito em: 04/09/2010