Mr. Mercedes

A resenha a seguir possui spoilers e reflete apenas a opinião do autor.

Lançado no dia 3 de junho de 2014 nos Estados Unidos (e ano que vem por aqui), o romance Mr. Mercedes conta a história de dois personagens: Brady Hartsfield e Kermit William Hodges. Hodges é um detetive aposentado, famoso pelo seu faro policial e seus muitos casos resolvidos… mas como ninguém é perfeito, houve algumas vezes em que o culpado lhe escapou pelos dedos. Brady é um deles. O pior deles. Tendo atropelado e matado várias pessoas com uma Mercedes-Benz roubada numa fria madrugada de abril, Hartsfield é rotulado pela imprensa como “O Assassino do Mercedes”. Ele não esperava escapar ileso, mas foi o que aconteceu. Sua felicidade, porém, dura pouco quando percebe que seu nêmesis – Bill Hodges – está sendo congratulado por décadas de serviço. Ultrajado por isso, já que o detetive não conseguiu capturá-lo – logo não merecia tais méritos – Brady resolve se vingar. Ele sabe que a taxa de suicídio entre policiais aposentados, que já não mais vivem a “emoção da caça”, é grande. E ultimamente Hodges realmente tem contemplado a arma de seu pai mais do que o normal. Por isso, o Mr. Mercedes resolve lhe enviar uma carta provocadora No intuito de fazê-lo cometer suicídio. O plano acaba saindo pela culatra, e um tenso jogo de xadrez entre um psicopata e um detetive aposentado começa.

O ponto mais alto de Mr. Mercedes tem que ser a ausência de clichês. Nada do que se espera, de anos de experiência com filmes hollywoodianos, acontece. O protagonista é, de fato, um policial aposentado. Entretanto, ele não possui nenhum passado trágico, nem foi expulso da força por má conduta, ou causou a morte de inocentes, etc… ele é simplesmente um grande profissional que chegou ao fim de sua carreira. Como humano, ele tem falhas; falhas, estas, que são exploradas pelo vilão da história no decorrer da trama. Esta simplicidade de caráter pode dar a impressão ao leitor de que não há um grande herói, como Bruce Willis em “Duro de Matar”, e que a trama não será emocionante. Este protagonista não saltará de prédios, não dizimará uma gangue inteira da Yakuza, não será condecorado pelo presidente, nem nada. Ainda assim, Hodges é um herói no sentido mais cru da palavra. Assim como bombeiros, paramédicos e outros profissionais da vida.

Brady Hartsfield é um psicopata bem escrito. O livro é um passeio intenso e detalhado por dentro de uma mente verdadeiramente doentia. Não vou revelar muitos detalhes de sua persona, porque isso entregaria parte da história. Mas o básico de todo psicótico está lá: nenhum remorso pelas atrocidades que comete, uma sede de sangue incontrolável, e uma vontade de ser o centro das atenções que é grande demais para se dar as costas. Brady é inteligente também. Além de enganar a polícia em seu primeiro atentado, ele também pretende iniciar mais alguns “projetos”. Bill Hodges é um destes.

Focando mais em um protagonista e um antagonista, Mr. Mercedes não tem um vasta gama de personagens, mas cada um deles tem algo a adicionar à história e são fáceis de se identificar. Soam tão reais quanto seu vizinho, seu professor, seus pais, seu colega de trabalho esquisito com cara de psicopata… e é mais uma das virtudes que o livro possui.

Lendo Mr. Mercedes, um poço de humor negro, tive a impressão de que Stephen King se divertiu a valer criando a história… mas, se por um lado o ponto maior do livro é a ausência de clichês, o ponto mais fraco seria a forçação de barra. King reconhece isso, fazendo, até mesmo, com que um de seus personagens aponte o absurdo de uma certa situação. Infelizmente, isso há de acontecer com uma longa história sobre investigação policial – em que, naturalmente, se desenham vários pontos que precisam estar sincronizados para que se mantenha o sentido. Felizmente, isto não acontece muito e nem invalida a trama quando o faz. Além disso, “improvável não significa impossível”. Não há grande prejuízo.

Outro ponto interessante deste livro é que ele nada tem de sobrenatural. O que é algo realmente raro de se ver nas obras de King (como Fúria e Misery) Não há referências às outras histórias suas, apenas às adaptações baseadas nelas, como “Christine: O Carro Assassino” e “It: Uma Obra-Prima do Medo”; creio que foi uma decisão acertada, que protege uma história planejada para lidar com coisas reais e que poderiam acontecer facilmente em nossa realidade. No contexto do livro, seria realmente estranho estar lendo sobre a perseguição a Brady Hartsfield e King meter A Torre Negra no meio. Neste sentido, o romance é um belo refresco para os leitores que vieram de Doutor SonoNovembro de 63Duma Key

Já o final do livro é uma surpresa em vários sentidos. Definitivamente, eu não esperava que a trama tomasse certas direções que tomou até o seu encerramento, o que coopera com a qualidade do livro de não possuir clichês (nenhum grave, pelo menos) e situações previsíveis. Apesar das já mencionadas forçações de barra, King consegue amarrar todas as pontas que criou. Não acho que seja um final “ame ou odeie”, como em Sob a Redoma ou A Dança da Morte, é bem mais simples do que isso, combinando perfeitamente com sua “aura literária” igualmente simples.

Em suma, Mr. Mercedes é um romance fácil, agradável, por vezes engraçado, por vezes tangivelmente assustador e que, embora tenha suas falhas, deve deixar a maioria dos leitores constantes satisfeita com a premissa, execução e finalização. De 1 a 10, minha nota final é 9.