It: A Coisa

A resenha a seguir possui spoilers dos livros It: A Coisa e Trocas Macabras e reflete apenas a opinião do autor.

Quando se fala sobre os melhores livros já escritos por Stephen King, as respostas mais comuns são três: A Torre Negra (para aqueles que consideram a obra como um único livro), A Dança da Morte, e It: A Coisa. A posição que o livro ocupa neste Top 3 de tais fãs não importa, porque é um sinal de que o livro é bom… e como é bom.

Mas seria A Coisa um livro perfeito? Não, até porque não considero nada perfeito, mas as desventuras do Clube dos Otários e a batalha contra o palhaço Pennywise se destacam numa posição especial na estante de livros. É um livro longo? É. É um livro cansativo? Não. E este o dom que encanta a maioria dos fãs de Stephen King. Se me perguntarem por que não considero It: A Coisa um livro perfeito, eu responderia apontando um trecho do livro que achei muito chocante e tremendamente desnecessário (imagino que você já tenha adivinhado). Mas ainda não é hora de falar desta parte.

Tirando esta minha pequena queixa, a sensação que tive enquanto lia It: A Coisa foi que eu estava acompanhando uma grande jornada em andamento, assim como O Senhor dos Anéis (mas não igual em escala, óbvio). De qualquer forma, este é um livro que facilmente prende o leitor e o faz se importar com os personagens apresentados.

Tal fato é provado pela narrativa de King, que, através de seus personagens (nas intercalações que se passam em 1985), dá dicas do que aconteceu quando eram crianças. Isso deixa o leitor ansioso para chegar a tal parte e descobrir todos os detalhes do que houve em 1958. E é assim que o livro se desenvolve: primeiro contando a batalha do Clube dos Otários juvenil, e o que acontece 27 anos depois, quando “A Coisa” retorna para uma revanche. Além disso, a história é intercalada por algumas crônicas de Derry, narradas por um dos protagonistas, Mike Hanlon. Este é um elemento que me agrada, e muito. Derry se tornou muito importante para os fãs de King, sendo palco de várias de suas histórias e referida em tantas outras. Saber de partes de sua história é uma cortesia de King que os fãs certamente agradecem.

Apesar de bastante longo, o livro se desenrola de maneira formidável a ponto de deixar os leitores angustiados por estarem cansados demais para continuar. It: A Coisa é uma leitura obrigatória não só para os fãs de King, mas para os amantes de uma boa história, que, independentemente do tamanho, mantém-se firme e prazerosa.

It: A Coisa contém uma galeria de personagens inesquecíveis. Comecemos pelo Clube dos Otários pelo seu líder involuntário, William Denbrough; também conhecido como Bill Gaguinho. Bill é o mocinho mais importante da história e tem um motivo a mais para conquistar nossa pena. A Coisa assassinou seu irmão caçula, Georgie. Para piorar a situação do rapaz, seus pais perderam qualquer interesse por ele depois da morte do garotinho, o deixando duplamente infeliz. Antes de formar o Clube dos Otários, Bill era amigo apenas de Richie Tozier e Eddie Kaspbrak. Apesar da gagueira dele, os dois meninos o respeitavam como um líder, até mesmo quando apanhava de Henry Bowers e sua gangue de delinquentes. Uma das características de Bill é o carisma que conquista todos os membros do Clube, a ponto de também considerá-lo líder, mesmo que nunca tenham feito qualquer tipo de votação.

Em toda turma de amigos há sempre o palhação; aquele garoto ou garota que está sempre de alto astral e fazendo piada com tudo. Não é diferente no Clube dos Otários, pois temos Richard Tozier, ou Richie, como é chamado. Sua virtude de ser bem-humorado tem um efeito colateral que geralmente o mete em confusões, o que, de certa forma, faz dele um rapaz extremamente valente a ponto de fazer graça até mesmo com o próprio Pennywise. Richie pode ser considerado o braço direito de Bill, estando pronto para defender o amigo.

O terceiro na fila é Eddie Kaspbrak, um menino frágil e asmático cuja mãe é exageradamente zelosa. Sempre com sua bombinha de ar, Eddie é quem mais sofre nas mãos de Henry Bowers e sua turma. Ele aparenta ser o mais covarde do grupo, mas como o próprio admite, ele seria capaz de dar sua vida pela de Bill, fazendo dele o mais leal dos Otários.

Ben Hanscom, por sua vez, é o típico garoto obeso de quem todos pegam no pé (principalmente Bowers). Dono de um coração de ouro, Ben, que é apaixonado por Beverly, é o mais talentoso do grupo quando se trata de construir coisas. É ele quem ajuda Bill, Richie e Eddie a montar uma pequena represa nos Barrens, floresta de Derry. Apesar de sempre estar sendo perseguido por Henry Bowers, Ben não foge da luta quando o assunto é defender seus amigos… principalmente Beverly.

Beverly Marsh, na contramão, é apaixonada por Bill, e pode ser considerada o contrapeso do grupo, já que é a única menina no Clube dos Otários. Bev facilmente conquista a amizade e amor de seus companheiros. Dona de uma incrível pontaria, ela não deve ser subestimada. Mas se Beverly é uma menina gentil e amorosa, por outro lado também é extremamente passiva. Quando criança, apanhava do pai, que a espancava de maneira exagerada. Quando adulta, o mesmo acontece pelas mãos do marido. Porém, quando é chamada para defender aqueles que ama, ela é capaz de virar uma fera e atropelar qualquer um que tente impedi-la.

Mike Hanlon é o único garoto negro do grupo. Vítima do racismo de Henry Bowers (oriunda de uma antiga rixa entre seus pais), ele acaba conhecendo Bill e seus amigos, que imediatamente o acolhem por sentirem que o menino é naturalmente parte do grupo. Em uma batalha de pedradas, Bill e sua turma triunfam sobre a gangue de Bowers. Assim, Mike se torna um Otário. Vinte e sete anos depois, Mike é o único do grupo que permaneceu em Derry. É ele quem percebe que A Coisa está querendo uma revanche e avisa a todos sobre os novos assassinatos que estão acontecendo em Derry.

Para fechar o círculo dos Otários, temos o elo mais fraco do grupo: Stanley Uris, que, assim como Mike, que é negro; Ben, que é obeso; e Bill, que é gago, é zombado por Bowers e seus capachos pelo fato de ser judeu. Stan é o mais cético do grupo e tenta encontrar qualquer explicação plausível para o que vem acontecendo em Derry, recusando-se a acreditar na incrível verdade. Quando criança, Stan, apesar de seu ceticismo, foi capaz de ter coragem o suficiente para enfrentar A Coisa, coisa que se recusou a fazer quando adulto.

Finalmente vamos falar dos vilões – dois em especial – o primeiro é Henry Bowers, o garoto que persegue os Otários durante toda a história. Filho de um lunático, Bowers, acompanhado de seus amigos, Victor Criss e Arroto Huggins, adora machucar quem quer que ache que mereça. Ele é o típico aluno problema que já repetiu a mesma série “n” vezes. Embora não saiba, Henry é influenciado por Pennywise. Através dele, principalmente quando já está adulto e internado no sanatório Juniper Hill, o demônio passa a ter uma ferramenta útil para matar Bill e seus amigos.

E qual seria o personagem principal do livro? Seria Bill? Ben? Henry? Nenhum deles é a resposta. O centro do livro é A Coisa. De acordo com King, Pennywise é um demônio que veio do espaço há milhões de anos. Ele é um “shapeshifter” (um ser capaz de mudar sua própria forma como bem entende). Com essa habilidade, o demônio atrai suas vítimas crianças usando a forma de palhaço, ou as aterroriza assumindo a forma daquilo que elas mais temem. Quando cai nos terrenos que futuramente formariam Derry, ela adormece até que comece a hora de iniciar seu ciclo. De 27 em 27 anos, Pennywise acorda de sua hibernação para se alimentar. Apesar de ser um vilão, Pennywise é um personagem bastante carismático; qualidade interessante naquele que poderia ser simplesmente uma máquina de matar desinteressante.

It: A Coisa contém uma galeria de cenários assustadores; desde a casa da Rua Neilbot, até o labirinto de esgotos que povoa o subsolo de Derry. Ponto para King, que descreve minuciosamente cada ambiente. Meu favorito é a casa da rua Neilbot, quando o Clube dos Otários a visitam pela última vez durante o primeiro embate contra Pennywise. O interior da casa é descrito como uma daquelas atrações de parque de diversões que você visita; uma casa maluca cuja arquitetura nunca é normal. Nesta casa em particular, A Coisa cria a ilusão de que o teto é içado ou que o corredor fica imensamente maior, deixando o leitor nervoso para saber qual será o próximo truque que Pennywise para assustar, ou mesmo matar, Bill e seus amigos.

Outro ambiente marcante é o Barrens, a floresta onde nossos personagens passam a maior parte da história (ou pelo menos enquanto são crianças). O Barrens também se torna famoso por ser o berço terrestre de Pennywise, que chega do espaço numa bola de fogo e lá colide, mantendo-se adormecido até que chegue a hora de atacar. É lá que as crianças constroem seu clubinho; um cubículo subterrâneo, usado, entre tantas outras coisas, para se esconderem de Henry Bowers.

Mas nenhum desses lugares se compara à galeria de esgotos de Derry, lugar onde. por duas vezes. os Otários enfrentam a criatura. É um verdadeiro labirinto, e ao acompanharmos a narração de King, nos sentimos tão perdidos quanto os próprios personagens, que só podem contar com o sexto sentido de Eddie e também de sorte. O grupo se aprofunda nas entranhas da cidade, chegando a locais inexplorados por qualquer habitante atual de Derry. É lá que a coisa se torna mais assustadora.

E agora, chegamos à parte que chocou a mim e a tantos outros. Não me entendam mal, alguns tabus até servem para fazer a história prosseguir, mas King resolve jogar na cara do leitor um difícil de engolir: sexo entre crianças. Quando um ator ou atriz aceita fazer uma cena de nudez, sua justificativa é que tal cena se ajusta no roteiro; não é de mau gosto; é necessária para história.

Eu, por mais fã de Stephen King que seja, simplesmente fiquei de boca aberta quando Beverly, uma menina de 11 ou 12 anos, tem a ideia de fazer sexo com todos os outros seis garotos do Clube dos Otários. O motivo para tal ato vem a ser a parte mais cabeluda da história: achar a saída dos esgotos de Derry. Quando estão perdidos, depois de terem derrotado Pennywise pela primeira vez, de algum modo, Beverly entende que o único jeito de escaparem do local é fazendo sexo (sem nem mesmo saberem do que se trata direito). O bizarro é que a ideia dá certo. Depois do ato, Eddie, que possui a incrível habilidade de saber a direção certa da saída, não importa onde esteja, milagrosamente volta a ter sua mente anuviada o suficiente para descobrir o caminho da salvação.

É uma cena que considero desnecessária, cuja justificativa não me satisfez nem um pouco. Não querendo esculhambar King, mas essa é uma das poucas coisas que me irritam em seu modo de escrever. Às vezes, se a resolução de um mistério ou de uma situação acaba sendo horrível (oi, Sob a Redoma), é melhor deixar que ela não tenha uma solução. Quando os Otários resolvem realizar o ritual de Chüd, sabendo exatamente o que devem fazer para sobreviver, isso torna-se parte daquele pequeno truque que alguns autores, incluindo o próprio King, adoram usar: o “Deus Ex-Machina”; um artifício pobre para resolver situações impossíveis. Em Trocas Macabras, na batalha final entre Alan Pangborn e Leland Gaunt, temos uma cena que abusa disso.

A ideia de que, se você é criança e fizer sexo grupal com seus amigos, criará uma conexão especial e recuperará seu sexto sentido não só é absurda, como também pesada. King explicou que nem sequer estava pensando no aspecto sexual da cena quando a criou, e sim na ponte que ela fazia entre a infância e maturidade dos personagens. Bom… Longe de mim querer ser santo, mas não conheço ninguém que tenha apreciado essa passagem do livro… talvez haja, né… Quanto a mim, jamais vou concordar com essa decisão narrativa de King, por mais que ele tenha tentado se justificar. Enfim…

Uma das coisas que os fãs mais reclamam ao lerem um livro de King é o final. Pessoalmente, achei o fim de It: A Coisa muito bom. Não diria que “os personagens que tinham de morrer, morreram”. King os construiu com maestria; acompanhamos suas juventudes; conhecemos seus medos e sonhos; e a vida adulta deles. Nos apegamos a todos os Otários, e nos sentimos mal quando dois deles não sobrevivem. Mas até isso contribui de forma positiva para a história.

King resolve finalizar o livro com uma passagem particular de Bill Denbrough, que consegue salvar a esposa do coma após ela ter visto a verdadeira forma d’A Coisa. O modo como isso acontece é, novamente, um Deus Ex-Machina. Por alguma razão que só Stephen poderia explicar (ou não), Bill percebe que, para tirar a esposa do coma, basta passear com ela em sua antiga bicicleta na maior velocidade possível. E olha só a surpresa… não é que dá certo? Quiséramos nós que o problema para resolver o coma fosse apenas um passeio de bicicleta… Seja como for, It: A Coisa é uma obra-prima do medo, como bem informa o subtítulo brasileiro da minissérie de 1990; é uma história tão poderosa que até as partes fracas e bizarras são incapazes de estragar a experiência como um todo. É uma leitura obrigatório para todo fã de Stephen King.

Artigo originalmente escrito em: 14/08/2010