Doutor Sono

A resenha a seguir NÃO possui spoilers e reflete apenas a opinião do autor.

Doutor Sono é o mais novo romance de Stephen King. Ainda inédito no Brasil (sai em 2014 pela editora Suma de Letras), o livro é uma continuação de um dos maiores legados de King: O Iluminado. Mas você provavelmente já sabia disso.

Quando perguntado sobre o porquê de retornar a um mundo deixado para trás há mais de 35 anos, Stephen King respondeu que Danny Torrance nunca deixou sua mente, de fato. Ele se perguntava o que teria acontecido com o menino que, com o passar dos anos, teria se tornado um quarentão. Em meados de 2009, pouco antes do lançamento norte-americano de Sob a Redoma, King teve uma conversa com um amigo sobre os Alcoólicos Anônimos. O autor somou a isso uma curiosa reportagem sobre um gatinho que parecia pressentir a morte de pacientes terminais em Rhode Island. Esses três fatores determinaram a gênese do que seria Doutor Sono.

Revisitar um livro tão badalado quanto O Iluminado foi um grande risco para Stephen King. Como muitos sabem, geralmente uma sequência (seja em filme, livro, etc…) acaba se tornando algo muito inferior ao original. Stephen King sabia disso e, conforme disse em algumas entrevistas, tinha um pouco de receio do que os leitores pudessem achar desta obra. Claro que ele já escrevera uma sequência: A Casa Negra (esta, infelizmente, ficou aquém ao O Talismã), mas ele teve a ajuda de Peter Straub. Com Doutor Sono, King estaria sozinho. Se o livro fosse um completo fracasso, a culpa seria inteiramente dele. Felizmente, em minha modesta opinião, não houve um mínimo sinal de desastre.

É Doutor Sono melhor do que O Iluminado? Sinceramente, não há como julgar. Os dois livros são completamente diferentes um do outro. Em O Iluminado, temos um horror-psicológico-sobrenatural-claustrofóbico; Doutor Sono, por sua vez, é mais uma aventura ao ar livre. Sim, há elementos de horror, mas eles não compõem a totalidade do livro. Para mim, tanto Doutor Sono quanto O Iluminado são excelentes livros, mas penso que não seria justo compará-los.

Então quer dizer que posso ler Doutor Sono sem ter lido O Iluminado? Poder, até pode. Mas não aconselho. De fato, a nova aventura de Danny (Dan) Torrance funciona sozinha, mas aqui e acolá, como qualquer sequência que se preze, a história faz referência a eventos, lugares e personagens de O Iluminado (como o prólogo, logo de cara). Para se ter uma experiência completa da jornada de Dan, e entender mais sobre os fantasmas que ainda assombram sua vida (não apenas os literais), faz-se necessário ler o horror que ele passou com sua família no Overlook, 35 anos antes.

Quanto a Dan Torrance, eu gostei muito de seu retorno. Aqui, King apresenta um personagem mais sábio e mais acostumado com seus poderes, mas, por ser humano, ainda tem suas falhas. Quais? Vamos apenas dizer que o Ka é uma roda. De qualquer forma, Dan não é uma projeção completa do pai. Dar-lhe uma personalidade adulta talvez tenha sido tão difícil quanto divertida, mas, no final, Stephen King (re)criou um protagonista muito interessante que precisa lutar com demônios interiores e exteriores.

A galeria de personagens do bem não é muito grande. O destaque fica, é claro, para a garotinha Abra Stone, uma iluminada mais poderosa do que o próprio Dan, e que é tão simpática quanto vingativa. Dizer mais seria spoiler, então vamos seguindo…

Do outro lado, está o Verdadeiro Nó, um grupo de nômades que viaja pelas estradas dos Estados Unidos em suas RVs (veículos de recreação… ou trailers, como a maioria de nós conhece). A líder do grupo chama-se Rose, a Cartola (que tem esse nome, obviamente, por usar uma cartola o tempo todo). Tudo o que ela quer é continuar sobrevivendo com sua família (cujos membros também possuem nomes curiosos) e atravessar mais e mais séculos. Isto porque o Verdadeiro Nó é um grupo de “vampiros de vidas”, que atravessam o país sugando a energia psíquica dos iluminados (a maioria crianças), o que os revitaliza e os rejuvenesce. Muito interessante é que King criou-os como uma família unida que fará de tudo para sobreviver.

Aqueles que leram O Iluminado terão prazer em revisitar alguns elementos da história original, mas engana-se quem pensa que Doutor Sono usa seu predecessor como muleta. Como já dito, a história funciona sozinha. E é essa independência que a deixa tão gostosa: Stephen King nos assegura que nos levará através de uma jornada que não imitará seu grande sucesso de 1977. Doutor Sono é um excelente livro sobre o sobrenatural, coragem, amor e, acima de tudo, redenção. Falar que Stephen King raramente acerta seus finais é sacanagem, mas a fama o precede. Doutor Sono, felizmente, não sofre desse mal. Para mim, não houve dúvidas: o desfecho é muito bonito, emotivo e capaz de arrancar uma ou duas lágrimas do leitor. Numa escala de 1 a 10, Doutor Sono ganha 8.5.

Por fim, escrever Doutor Sono talvez tenha sido uma das melhores decisões da vida de King. Não apenas porque é um livro que certamente encherá seu bolso de verdinhas, mas, porque, conforme o Leitor Fiel mais atento for percebendo, ele consegue recuperar aquela velha faísca que suas obras antigas possuíam (e que, segundo reza a lenda, ele perdeu após ser atropelado). O livro consegue ser, em simultâneo, moderno e nostálgico, e deixa os leitores na expectativa de que tal “faísca” possa, eventualmente, transformar-se numa chama. Mas… isto é uma coisa que só o tempo dirá.