Carrie, a Estranha (2013)

A resenha a seguir possui spoilers e reflete apenas a opinião do autor.

Tive a oportunidade de finalmente assistir à releitura cinematográfica do primeiro romance publicado por Stephen King. Antes disso, porém, fui curioso o bastante para ler algumas críticas (norte-americanas, em sua maioria) do filme, buscando algum sinal de que não seria uma perda de tempo total. Acontece que, para meu desgosto, muitos se preocuparam mais em comparar a versão 2013 com a versão 1976 de De Palma. Pessoalmente, acho uma tremenda injustiça. Quando Kimberly Peirce (“Meninos não Choram”) ocupou a cadeira de diretora, imagino que a última coisa que ela pretendia era fazer um filme apenas para entrar em confronto com a versão original. A intenção precisava ser modernizar a lenda de Carrie White. Portanto, penso que julgar a nova versão de “Carrie, a Estranha” colocando-a num ringue com sua predecessora não faz sentido. O que queremos saber aqui são duas coisas: a) é um bom filme? e b) é relevante?

Bom… a meu ver, o filme tem grandes defeitos. A começar pela escalação da protagonista. Vocês provavelmente já estão cansados de ler e ouvir falar nisso, mas faz-se necessário tocar no assunto novamente: Chloë Moretz é bonitinha demais para o papel. Quando Stephen King compôs sua personagem, ele tinha em mente duas garotas desajustadas que haviam cruzado seu caminho. Especificamente, ele criou Carrie White como uma menina de aparência descuidada, de rosto coberto de espinhas, tímida e levemente “cheinha”. Peirce, por sua vez, respeitou metade dessa descrição, sabe se lá por que (talvez o dinheiro para maquiagem das espinhas estivesse meio curto). É certo que nem sempre uma adaptação precisa ser 100% fiel à descrição de suas personagens. Veja “Red”, de “Um Sonho de Liberdade”. Na história original, ele é um irlandês ruivo. No filme… Morgan Freeman. No fim das contas, serial difícil algum ator irlandês e ruivo alcançar o nível de atuação de Freeman. Com “Carrie”, o assunto já é mais delicado. É justamente a aparência da personagem que se torna um dos elementos mais importantes da história. A beleza de Chloë Mortez é simplesmente distrativa.

Infelizmente, não apenas a aparência de Moretz atrapalha: sua atuação não é lá essas coisas; o que é uma ingrata surpresa, visto que a atriz-mirim já entregou ótimos papéis. A mim, pareceu que ela não fazia ideia de como representar Carrie. Sua reação ao seu primeiro ciclo menstrual não é forte o bastante, e as caras e bocas que ela faz ante a descoberta de seus poderes beira ao amadorismo. Com exceção do intenso final, é apenas nas cenas mais brandas que Moretz se encontra. Coincidentemente, ela divide a maioria destas cenas com Julianne Moore (que parece inspirá-la bastante). Moore, que interpreta a mãe de Carrie (consequentemente, o segundo pilar mais alto da história) faz o dever de casa certinho e expira a boa atuação que todos já esperavam. Ela é um dos pontos altos do filme, compondo Margaret White na medida certa; de uma maneira nem tão normal, mas também nem tão psicótica (uma cena que gostei bastante é um instante de carinho verdadeiro que ela tem com Carrie ao acordá-la dentro do “armário de preces”). O resto do elenco de apoio não compromete, embora parte deles tenha que se comportar como adolescentes irritantes, e isso é relativamente fácil…

Uma coisa que me irritou bastante nesta nova versão da história foi que, por algum motivo que deve ter soado bastante pertinente na cabeça dos roteiristas, resolveram transformar Carrie White numa espécie de Supergirl. Seus poderes (que não são usados com parcimônia) não se restringem apenas à telecinesia; nesta releitura, ela pode derreter trancas com grandes temperaturas e até levitar (tá, pode ser que ela esteja usando telecinesia em si mesma, mas é bizarro vê-la levitando pelo ginásio durante a tragédia do baile).

A cena do baile, por sua vez, é executada fielmente. Graças ao avanço da tecnologia, foi possível deixar a coisa toda mais intensa e original. Temos agora pedaços gigantes do cenário voando em chamas, Carrie prendendo duas meninas ao chão para que sejam pisoteadas até a morte, e por aí vai… a sequência toda é sensacional. Mas não para por aí. Como eu disse, a tecnologia permitiu que os envolvidos na produção do filme pudessem se aproximar mais da visão de Stephen King. Agora, temos Carrie deixando um rastro de chamas e destruição por onde passa, até finalmente alcançar seus algozes em mais uma cena impactante (literalmente falando). Por fim, chegamos ao confronto final entre Margaret e Carrie. Também uma bela cena, mas aqui e acolá desliza sem se decidir se vai voar com as próprias asas (o destino de Margaret é um pouquinho diferente do livro), ou se vai ser fiel ao romance de King (a chuva de pedregulhos). Pouco depois, o filme termina com uma pequena homenagem sem graça ao filme de De Palma.

Pois bem, com o filme analisado, vamos às duas perguntas do início desta crítica:

  1. a) é um bom filme?

É um filme que alterna entre bons momentos, maus momentos e péssimos momentos. As qualidades do filme só desabrocham no terceiro ato, e para chegar até lá é preciso um pouco de paciência por parte do telespectador. Como adaptação, o longa tenta ser fiel, cobrindo a maior parte do livro, enfiando algumas outras passagens originais e outras que nunca foram tocadas nas adaptações anteriores (como a gravidez de Sue Snell). Fui pesquisar a nota do filme no IMDb.com, e é pouco mais do que 6 (atualização: 5,9). Para mim, parece uma nota justa. O filme não é exatamente uma porcaria (está bem longe do nível de adaptações como “A Criatura do Cemitério” e “Comboio do Terror”); é apenas razoável. Percebe-se que a diretora e os roteiristas estão realmente se esforçando para conseguir que o filme seja relevante, o que nos leva à próxima questão…

  1. b) o filme É relevante?

Em uma palavra? Não.

Mas tenta ser. Ao modernizar o filme com smartphones, telões e até Youtube, Kimberly Peirce tenta dar uma cara original à adaptação; algo que a destaque de suas versões anteriores, na esperança de que o fantasma da comparação seja afastado. Mas o grande problema de “Carrie, a Estranha” é justamente este: tentar ser algo que não é.

Stephen King publicou a história em 1974, De Palma a adaptou para o cinema em 1976, um musical da Broadway já foi feito, outro filme, desta vez para TV, foi exibido 11 anos antes… enfim, Carrie já foi revisitada até demais. Colocar alguns aparelhinhos eletrônicos, carros de última geração e outras modernidades, não vai deixar o filme relevante. Agora, se a intenção era atualizar o alerta contra bullying, que criassem uma história original.

A única culpa dos envolvidos é insistirem com uma história que já foi contada diversas vezes de diversas maneiras. Não há muito que possam adicionar sem deformá-la. Sim, eles tentam enriquecer a história com efeitos especiais e outros detalhes modernos, mas isso é muito pouco para causar qualquer impacto no telespectador, principalmente aquele que já conhece a história de King e que já viu as outras adaptações. Se por acaso esta fosse a primeira vez que a história é adaptada, com certeza esta crítica (e de muitos outros) seria mais positiva. Acontece que eu, como muitos, já estou cansado do mesmo osso sendo roído e roído sem qualquer compensação que preste…

No frigir dos ovos, “Carrie, a Estranha” é uma adaptação fiel, mas que (quase) nada de novo adiciona. É um bom filme para se matar o tempo ou ver por curiosidade, mas que, provavelmente, estará fadado ao esquecimento, a não ser que surja do nada enquanto você estiver trocando de canal.

Pessoalmente, prefiro a versão de De Palma. Sempre acreditei que Carrie White pertence aos anos 1970.