Ao Cair da Noite

A resenha a seguir não contém spoilers e reflete apenas a opinião do autor.

Ao Cair da Noite é a mais recente antologia de contos de King (tanto aqui, quanto nos EUA, em 2011), depois de um hiato de 6 anos desde Tudo é Eventual; um tempo que valeu a pena esperar. Não que eu tenha detestado Tudo é Eventual, mas salvo três ou quatro contos, é a coletânea mais fraca de Stephen King. Por isso, quando abri este novo livro, fiquei apreensivo, visto que receava que Ao Cair da Noite pudesse cometer a proeza de ser ainda pior do que Tudo é Eventual. Ledo engano. Ao Cair da Noite nunca será um Sombras da Noite, ou mesmo um Tripulação de Esqueletos, mas é um livro que deixa o leitor satisfeito. Há alguns poucos contos ruins e/ou chatos, outros poucos regulares, mas a maioria consegue ser boa. O que se segue é mais uma crítica pessoal, em que vou detalhando, na ordem em que mais gostei, e explicando o porquê.

N.: N. conta a história de um homem tentando salvar o mundo da invasão de um mal antigo. O que o torna meu conto favorito dos 13 é a sensação Lovecraftiana (mesmo que King negue veementemente que tenha se inspirado em Lovecraft) e apocalíptica. Apesar das longas páginas, li o conto de uma vez só, tamanha era minha curiosidade por saber como as desventuras de um pobre homem comum contra um mal inimaginável terminaria. N. ganha a medalha de ouro por ser intenso, inteligente e original.

No Maior Aperto: Uma das minhas modalidades de histórias favoritas é aquela que possui uma boa vingança. Tudo bem que nesta história a tal vingança não é lá a coisa mais orquestrada do mundo, mas a sensação de claustrofobia e de nojeira a que o protagonista é submetido compensa facilmente; o final da história também “vomita” humor ácido, e certamente deve agradar qualquer leitor que tiver paciência para batalhar através das páginas “nojentas e apertadas” do conto.

Mudo: Achei muito interessante. A sinopse você pode ler na ficha do livro em outra seção do site. Portanto, não vou me alongar falando sobre este. Apenas posso dizer que é um conto estranho (no bom sentido), e sua estranheza é o que faz o leitor querer saber o destino dos dois personagens principais: um homem traído e um surdo-mudo.

O Gato dos Infernos: Aqui temos um conto com quase 35 anos, que finalmente conquistou seu merecido lugar em uma coletânea. A história aqui chega a ser hilária em sua premissa; um assassino profissional é contratado para matar um gatinho. Só que, é claro, a mais ridícula das premissas se torna intensa nas mãos de Stephen King. Um dos trunfos do conto é deixar o leitor sem saber exatamente por quem torcer; o assassino, que já tirou a vida de tantas pessoas, ou um gatinho de aparência inocente (que de inocente não tem nada).

A Corredora: Eu gosto desse conto mais pelo vilão do que pela mocinha; o cara é simplesmente um psicopata legítimo. Sua personalidade não é desenvolvida por King, e talvez seja isso que dá um toque mais perigoso ao homem. Na história, uma moça sofrida resolve começar a se exercitar em longas caminhadas para esquecer e superar os problemas; só que o destino a coloca frente a frente com o psicótico já mencionado.

As Coisas que Eles Deixaram para Trás: Neste conto, o protagonista passa por uma experiência estranha ao encontrar objetos de seus amigos que morreram no atentado ao World Trade Center. Há quase zero terror neste conto, e o que me fez mais gostar dele foi isso; uma experiência dramática do pós-trauma do 11/9 na visão de Stephen King.

A Bicicleta Ergométrica: É a partir deste conto que as coisas começam a ficar “regulares”. Esta história é divertida e o desfecho bastante intrigante, mas não isso não o salva de ser cansativo e exageradamente detalhista. Ainda assim, pode ser uma lição para aqueles que estão com uns quilinhos a mais e têm uma mente um tanto quanto criativa.

Ayanna: Pode-se dizer que me lembrei de À Espera de um Milagre ao ler este conto. Ele é rápido e não muito desenvolvido; é apenas uma rápida varredura sobre o que pode acontecer, bem como o o fardo que surge, se você tiver o poder de curar as pessoas.

The New York Times a Preços Promocionais Imperdíveis: Este conto será mencionado novamente mais abaixo, mas, por enquanto, vamos falar dele separadamente. É mais um dos contos curtos… Uma viúva recebe um telefonema do marido que faleceu num desastre de avião. A boa parte do conto é a interação entre os protagonistas e a “premonição do morto” (vocês vão entender quando lerem), o ponto baixo da história foi ela justamente ser curta e acabar repentinamente, deixando insatisfação no ar e a sensação de que a história poderia oferecer muito mais.

Willa: Com uma premissa bastante similar a de “O Sexto Sentido”, este conto não oferece muita coisa nova. Assim como a história mencionada acima, creio que “Willa” também tinha muito mais a oferecer. O jeito é respeitar a opinião de King quando pensa que sua história já está boa.

O Sonho de Harvey: É aqui que volto a falar sobre “The New York Times…”. Este conto é apenas uma variação desse. Entretanto, ao contrário do primeiro, “O Sonho de Harvey” termina de maneira satisfatória (previsível, no entanto); tem uma das personagens mais chatas dos 13 contos (a esposa), e é, basicamente, uma cópia descarada de um dos mais conhecidos textos do próprio King: “Desculpe, Número Certo”, de Pesadelos e Paisagens Noturnas (The New York Times também lembra, e muito, esta história). A falta de originalidade pesa muito contra este conto.

Posto de Parada: É um conto ruim. Não tem nenhum sentido de existir e quem pegá-lo pode ter (ou não) a mesma sensação que eu ao ler sobre um homem que flagra um casal brigando dentro de um banheiro público, e que, por alguma razão, encarna seu pseudônimo (ele é um escritor) para ter coragem de se meter na briga. A boa notícia é que o conto é relativamente curto.

Tarde de Formatura: Mesmo não sendo inútil como “Posto de Parada”, elegi este conto como o pior da coletânea. Não por ser absurdamente curto, mas por não ter absolutamente nada de interessante. Os personagens são vazios, os pensamentos da protagonista são chatos, e a surpresinha nas últimas páginas não empolga. Ao menos o conto é finalizado como se deve.

Conclusão… Ao Cair da Noite é uma boa leitura. É um livro rápido (mesmo ocupado, li em menos de 20 horas) e divertido. Detalhe para as notas que King joga no final, que são tão interessantes quanto os próprios contos. Certamente não é a melhor coletânea de King, mas também está longe de ser a pior. Claro que gosto é gosto. Você muito provavelmente discordou da minha ordem de preferência, ou pensou que eu esculachei um conto que, em sua opinião, é um tesouro da literatura. Seja comofor, se você já tiver Sombras da Noite Tripulação de Esqueletos em sua coleção e quiser mais um livro de contos, Ao Cair da Noite é uma boa escolha.

Artigo originalmente escrito em: 23/07/2011