Achados e Perdidos

A resenha a seguir contém spoilers mínimos e reflete apenas a opinião do autor.

Há um ano e poucos dias, publiquei minha resenha de Mr. Mercedes – a primeira parte de uma trilogia policial com o detetive aposentado Bill Hodges como protagonista. Na época, estava muito curioso para saber como seria a inserção de Stephen King ao mundo explorado por outros autores consagrados do gênero, como Agatha Christie e Raymond Chandler. Muito embora King ainda fosse “virgem” nessa área, ele se saiu muito bem, em minha modesta opinião.

Por isso, quando terminei de ler Achados e Perdidos, a segunda parte da trilogia de Hodges, publicada no último dia 2 de junho, fiquei surpreso com o passo atrás que a narrativa de King sofreu. O livro está longe de ser um dos piores do autor, mas certamente não representa uma evolução muito grande na construção do trio de protagonistas de Mr. Mercedes. Por falar nisso, Hodges, Jerome e Holly não aparecem em cena até a segunda seção do livro. O porquê será explicado no parágrafo abaixo, com o mínimo de spoilers possível. Caso você não queria saber de nada, pule este próximo parágrafo.

A primeira parte do livro, que alterna entre 1978 e o presente, conta a história do vilão Morris Bellamy, um fanático por literatura que invade a fazenda de um famoso autor recluso para roubar alguns cadernos que ele acredita conter novas histórias de Jimmy Gold, personagem criado pelo dito autor. As partes que ocorrem no presente procuram apresentar ao leitor o jovem Peter Saubers, que acaba encontrando os cadernos roubados e provocando a ira de um agora grisalho Bellamy – um dos dois motivos do título original do livro ser Finders Keepers (“Achado não é Roubado”, numa tradução mais ao pé da letra).

O artifício de segurar o retorno de Hodges é compreensível para poder apresentar ambos os lados do tabuleiro do jogo entre o bem e o mal. Todavia, visto que a primeira parte do livro também é a maior, a estratégia adotada por King pode causar cansaço ao leitor que está esperando Bill Hodges e já entendeu os “dramas” de Saubers e Bellamy há um bom tempo.

Por falar no vilão da história, Morris Bellamy é um dos antagonistas mais confusos que Stephen King já criou. O personagem é criado como um homem que costuma ter surtos perigosos; que não possui nenhuma simpatia por outra pessoa; além de usar dos mais diversos estratagemas para conseguir o que quer, incluindo matar. Até certo ponto, Bellamy é um sociopata altamente calculista. Contudo, ao longo da história, também percebe-se um fanatismo, imaturidade e obsessão de grandes proporções no personagem que formam seu tendão de Aquiles. Seu objetivo derradeiro é, tecnicamente, tão simples, mas seus “sacrifícios” para alcançá-lo são grandes demais. Cheguei à conclusão de que tudo só poderia ser justificado caso o personagem fosse apenas um louco psicótico que, embora preservasse sua obsessão, seria menos inteligente; alguém que não fosse capaz de pensar racionalmente, o que Bellamy faz frequentemente.

O núcleo da família Saubers também decepciona. Stephen King cria uma família fragilizada pelo incidente causado pelo Mr. Mercedes no livro anterior (dizer mais seria spoiler), mas procura se focar apenas nas duas crianças, Peter e Tina. A mãe, Linda, tem uma participação maior, mas o pai, Thomas, literalmente some no meio da história para nunca mais voltar – apenas ser esporadicamente mencionado aqui e acolá, o que é bastante estranho, visto que as crianças, principalmente Peter, estão em perigo constante quando Morris Bellamy descobre quem é o atual dono dos cadernos de seu autor favorito.

Já no tocante ao trio de protagonistas, Hodges, Holly e Jerome, aqui assumem um papel quase coadjuvante. Não espere muito desenvolvimento de suas personas (a única novidade é que Bill fundou uma agência para resgatar propriedades roubadas ou perdidas – o nome dela eu vou deixar você adivinhar). Todos os três são jogados neste novo caso e passam a trabalhar para resolvê-lo, mas exceto por uma (e eu não vou revelar do que se trata, porque é um GRANDE spoiler) não há subtramas envolvendo esses personagens.

Acerca da trama, o leitor poderá se lembrar de Misery, romance de 1987, que também conta a história de uma fã (infinitamente superior a Bellamy) obcecada pelo trabalho de seu autor favorito. As semelhanças, porém, são apenas superficiais. O rumo que as histórias tomam são muito diferentes. Enquanto Misery lida com um jogo entre gato e rato que “moram” sob o mesmo teto, Achados e Perdidos foca no gato procurando desesperadamente pela guloseima do rato, sem saber, precisamente, que rato é esse. Como mencionado, o trio liderado pelo ex-detetive Kermit Bill Hodges demora a aparecer, mas, no geral, Stephen King conta a história com muita fluidez – um dos pontos positivos do romance. Tanto o início quanto o final da história são incríveis e dificilmente você largará o livro antes de finalizar ambas as seções.

Concluindo, aqueles que esperam que Achados e Perdidos supere Mr. Mercedes podem se decepcionar. É uma boa história, mas longe de possuir um vilão sólido e verdadeiramente psicótico como Brady Hartsfield, ou uma história tão explosiva quanto a contada no primeiro volume da saga. No fim das contas, a segunda parte da trilogia de Hodges funciona mais como uma ponte – cuja maior função é nos levar à inesperada direção que a última aventura de Bill toma em Último Turno. De 1 a 10, minha nota para é 6.5.