A Longa Marcha

A resenha a seguir contém spoilers e reflete apenas a opinião do autor.

A Longa Marcha foi o segundo romance de King publicado sob seu pseudônimo; é também uma das histórias mais violentas de Bachman. Felizmente, não é uma violência gratuita. Na história, 100 garotos se inscrevem por livre e espontânea vontade na corrida que dá título à trama. O prêmio do único vencedor é um desejo (seja ele qual for). Entretanto, chegar ao final da marcha não é fácil.

Dotada das regras mais brutais, a Longa Marcha não é para qualquer um. Aqueles que não tiverem um porte físico adequado certamente morrerão. Sim, morrerão. De acordo com as regras, aquele que diminuir o passo recebe uma advertência; após receber três delas, o participante é friamente executado enquanto os outros seguem na competição.

A história gira em torno de Ray Garraty, um rapaz com seus próprios problemas, que inevitavelmente faz amizade com um grupo que corre na marcha. O que acontece com as pessoas ao seu redor e a perseverança de Ray são os pontos principais do livro. Neste romance, King cria uma história inteligente que interage diretamente com o leitor.

Fome, frio, calor, fadiga, cãibras e balas. Os jovens vão experimentar de tudo nesta competição. É um desafio que dará a um deles uma vida totalmente realizada, e a 99 uma morte prematura.

Por ser o personagem principal, Ray pode ser considerado o “herói”. Ele é constantemente ovacionado pelo público cada vez que passam por espectadores. A realidade, porém, é que Ray é apenas mais um garoto no meio de outros 99. Ele não tem nada de especial. Ray tem uma mãe a quem evita e uma namorada que, no decorrer da marcha, significará muito mais para ele do que se pensava. O pai de Ray foi levado pelo governo (o motivo não é muito bem esclarecido).

O participante que se torna o melhor amigo de Ray é Peter McVries, um sujeito amargurado por ter sido deixado pela namorada que, assustada, o feriu, deixando uma feia cicatriz no queixo do garoto. Essa é basicamente toda a história que recebemos sobre Pete. Fora isso, ele é um rapaz durão que se torna amigo de Ray e dos outros rapazes. No livro, Peter representa a balança que mede o equilíbrio entre a sanidade e a lucidez.

Gary Barkovitch é aquele que podemos chamar de vilão. Barkovitch insiste em ficar provocando boa parte dos candidatos, incluindo Ray e seus amigos, e seu veneno não tem limites. Barkovitch, durante uma briga com outro participante, acaba provocando a morte desse, quando o garoto insultado, que já tinha três advertências, tropeça. A partir daí, toda vez que resolve abrir a boca para soltar uma gracinha, Pete o chama de assassino, o deixando bastante nervoso. Barkovitch passará o resto da marcha provocando os outros e clamando que vencerá a Longa Marcha.

Por fim, temos Stebbins; um garoto um tanto curioso. Stebbins não tem físico de atleta e, à primeira vista, poderíamos imaginar que ele seria o primeiro a morrer. Mas Stebbins tem um motivo secreto para alimentar sua determinação. Stebbins tem a função de representar a sanidade completa. É ele o único personagem que permanece sempre lúcido, até o fim da marcha. Entretanto, Stebbins é considerado muito mais vilão do que Barkovitch, porque enquanto Gary apenas xinga e provoca, as palavras de Stebbins, como Ray bem descobre, penetram bem mais fundo. Esta é uma habilidade que ele sabe que tem, e que pode, se aplicada corretamente, diminuir consideravelmente o número de corredores.

Mas, no fim das contas, eles são apenas garotos. Todos eles têm seus desejos, suas saudades, suas fraquezas. Mesmo Barkovitch e Stebbins mostram isso antes do final. A verdade é que A Longa Marcha não possui vilões (pelo menos não entre os corredores).

Como dito, a principal regra da marcha são as três advertências, mas é claro que existem outras. Primeiro: não se deve usar tênis, pois eles dão calos facilmente. Segundo: deve-se ir devagar, pois isso o levará longe. Terceiro: não se deve interferir na marcha dos outros competidores. Poupar fôlego e energia são outras regras. Há também algumas regras que os participantes vão descobrir na prática. Alguns tentam escapar no meio da multidão, ou correndo para fora da marcha, mas os guardas responsáveis pela vigia “executam” o trabalho com perfeição. Os participantes não podem parar por muito tempo, ou receberão uma advertência. Tal penalidade é apagada se o participante conseguir completar uma hora sem receber outra.

Não se sabe ao certo quem criou as regras d’A Longa Marcha. Aparentemente, foi o Major, personagem que é retratado como uma espécie de deus, aparecendo no início da marcha para informar aos competidores sobre as regras, esporadicamente durante o percurso, e no fim para congratular o vencedor.

Com as regras em mente, os garotos têm de se virar para continuar correndo, chegando ao ponto de terem que “evacuar” andando. Água, por sua vez, é um direito assegurado. Qualquer participante receberá um cantil cheio quando pedir. Esse é um dos poucos luxos que os garotos terão. Não há paradas, não há descanso. Por cinco dias, 99 jovens marcharão rumo à morte, e o último que sobrar, se ainda estiver em condições de viver lucidamente, ganhará o grande prêmio.

A grande sacada do livro talvez seja a habilidade de Stephen King para fazer com o que o leitor se teletransporte para as páginas, postando-se atrás da multidão que observa os participantes. Neste sentido, nós nos tornamos parte da história. Torcemos pelos meninos e nos espantamos quando um deles morre. Essa é a magia da literatura bem escrita.

Artigo originalmente escrito em: 05/09/2010