A Dança da Morte

A resenha a seguir contém spoilers e reflete apenas a opinião do autor.

Depois de um longo tempo sem resenhas, eis que a inspiração me volta para que eu escreva mais uma. Para falar a verdade, foi uma inspiração instantânea, já que no momento em que escrevo não deve fazer nem meia-hora que terminei de ler o livro. Não vou puxar muito o saco da obra, vocês que já leram (se não leram, cuidado com os spoilers) sabem muito bem da magnitude que A Dança da Morte alcançou com o passar dos anos, e de como ela se tornou parâmetro para várias obras do gênero.

Confesso que demorei cerca de quatro meses e meio para terminar o livro (infelizmente, ao contrário de muitos na Las Vegas de Flagg, eu tenho uma vida bastante corrida). Atravessar as quase mil páginas do livro não é tarefa fácil, mesmo sendo uma ótima história. Apesar dos momentos de estafa (e que não foram poucos), não demorei para perceber um sorriso besta tomando conta da minha cara nem dois minutos depois de terminar a leitura.

Agora, chegou a hora de transpor para vocês minhas impressões, minhas revoltas e concordâncias acerca desta que é a maior obra de volume solo de Stephen King (VOLUME SOLO, amantes d’A Torre). O primeiro ponto que quero analisar é a trama.

O livro trata de um vírus desenvolvido numa base militar ultrassecreta, que é modificado geneticamente e liberado acidentalmente em nosso sistema. O resultado é o extermínio de 99% dos seres humanos.

É uma premissa bastante interessante, é claro, apesar de tratada com relativa exaustão por alguns autores como Richard Matheson e Cormac McCarthy. Não é de hoje que King expressa seu medo do fim do mundo pelas mãos do homem (mas quem não tem, não é mesmo…). Lembro-me de uma parte do livro Os Estranhos em que o protagonista se envolve numa discussão sobre esse mesmo assunto; é mais uma crítica de King contra aqueles que gostam de brincar de Deus.

A primeira parte do livro fala sobre isso: de como a epidemia do vírus, carinhosamente chamada de Capitão Viajante, se alastra; os sintomas; e o impacto que isso tem no planeta. Particularmente, acho bastante interessante o modo como King descreve o desenrolar da pandemia. Uma pessoa doente aperta a mão da outra, contaminando-a; esta, por sua vez, vai cantar num bar, passando o Capitão Viajante para mais trinta pessoas. É aquilo que alguns chamam de “efeito dominó”.

Se por um lado ver os Estados Unidos desabar é uma experiência e tanto, senti falta do resto do mundo. Posso estar enganado e ter deixado escapar, mas acho que em nenhum momento King nos fala o que aconteceu ao redor do planeta O que aconteceu aos sobreviventes dos outros países? Será que eles têm seu próprio Flagg para lidar? Não sabemos. Esse detalhe acho bastante chato. Penso que ele simplesmente poderia ter descrito em alguns poucos parágrafos, como faz ao relatar a morte de vários cidadãos aleatórios.

Mas… quem não tem cão, caça com gato. Temos que nos contentar com os Estados Unidos. Enquanto os responsáveis pelo vírus morrem contaminados ou se matam por culpa, acompanhamos vários sobreviventes misteriosamente imunes à doença que estão tão confusos quanto os leitores. Fora eles (falarei deles mais adiante), só nos resta acompanhar a queda de um dos maiores países do planeta; que acontece de forma lenta e nojenta.

Isto significa que a sociedade desaba. Adeus política, adeus programas de TV, adeus presidentes, adeus a tudo mais. Dai a César o que é de César. Temos que congratular Stephen King por imaginar como uma sociedade completamente devastada poderia se reerguer como uma civilizada (para o bem ou para o mal). Acho esse um dos grandes pontos do livro: o talento do autor de praticamente escrever um manual para refazer uma sociedade em caso de uma grande pandemia varrer a maior parte do mundo. Capitão Viajante não é, sem dúvida, o vilão da história. É o famoso caso de causa e consequência. Foram os humanos do livro que o criaram, foram os humanos do livro que falharam em proteger a arma letal. O vírus apenas fez seu trabalho natural.

Falar de personagens é uma tarefa meio chata e que causa muita discussão. Enquanto uns amam Stuart Redman, outros o odeiam. Faço parte do segundo grupo e, a partir de agora, vou me comprometer a detonar esse cidadão.

Stu para mim, é um dos personagens mais sem graça e chatos da galeria criada por Stephen King. Eu nunca achei que alguém arrebataria o lugar de Bobbi Anderson, de Os Estranhos, do meu pódio pessoal, mas Stu conseguiu. Pelas quase mil páginas da história, enquanto não está transando com Fran, Stu age como o líder que ninguém elegeu. Como protagonista da história (que tem vários), Stu deveria ser determinado, esperto e valente. O que se vê, porém, é um comportamento de coadjuvante. Pode até parecer implicância minha, mas não é. Realmente perdi as contas de quantas vezes Stephen King fez Stuart levar Fran para a cama. Se você acha que é marcação minha, perceba que até “Deus” faz Stu se estabacar num buraco, enquanto os verdadeiros heróis da história vão se sacrificar para acabar com Flagg. Stu Redman é um perfeito inútil.

Quanto a Fran, nem vou gastar muitas linhas. Ela é tão chata e inútil quanto Stu. Passa o livro inteiro rindo de coisas que ninguém mais ri, correndo de Harold, indo pra cama de Stu, sendo paparicada porque está grávida e chorando quando está sozinha.

Estou sendo rígido demais? Talvez. Mas aos que não concordam comigo e acham que vou detonar todos os heróis da história, relaxem, já acabou, ou quase. A próxima personagem que analiso é a Mãe Abagail, uma velhinha que mora numa fazenda e que, por acaso, é a representante de Deus na Terra após a pandemia. O fato dela perder força no decorrer do livro é culpa da história, que a força desaparecer por um bom tempo após os eventos da Zona Franca. Ela começa como uma personagem interessantíssima e promissora. Tudo bem, nunca esperei que a “véia” caísse na porrada com Randall Flagg, mas ela bem que poderia fazer uns truquezinhos legais (para não ser totalmente injusto, ela opera um pequeno milagre no leito de morte, tirando a dor de Fran). King faz bem ao relatar os dias de juventude de Mãe Abagail; o único modo de nos fazer simpatizar com a mesma. Às vezes, ela é teimosa e chata, mas faz parte do caráter bem construído da personagem, que segue fielmente Deus e está acostumada com a rigidez da sociedade de seu passado… ainda assim, ela tinha potencial para mais.

Tom Cullen e Nick Andros são dois dos personagens mais adoráveis dessa história. Tom é um rapaz com deficiência intelectual, mas com um poder especial escondido (algo comum nos livros do King, principalmente com crianças ou deficientes). Nick, por sua vez, é um surdo-mudo bastante inteligente que consegue se comunicar através da escrita e da leitura labial. Os dois começam bem como uma boa dupla, mas quando se “separam”, tomam rumos diferentes. Nick vira o perfeito personagem burocrático, achando que é o “chosen one” para levantar a sociedade de novo. Ele pensa sobre leis, comércio, prisão, enfim… Isso me chateou. Gostaria que Nick houvesse tido uma melhor utilidade antes de ser mandado pelos ares. Tom, por outro lado, continua “sólido”, divertido e inocente como sempre. Ele ganha destaque e importância quando é mandado como espião para Las Vegas para investigar o que Flagg anda fazendo. É o bom e velho Tom quem se prova a salvação do inútil do Stu.

Larry Underwood é o último mocinho que vou querer analisar. Glen Bateman e Ralph Bretner são meros coadjuvantes, e receio que essa resenha fique enorme se eu falar de um por um. Larry é o único mocinho de quem gostei verdadeiramente (além de Tom). Ele é aquele cara cheio de falhas, sem muita paciência, e que a gente nunca sabe ao certo se vai seguir Mãe Abagail ou Randall Flagg. O personagem tem carisma e, ao contrário de Stu, se parece perfeitamente com um líder, apesar de falhar com algumas de suas responsabilidades no decorrer do livro (ninguém é perfeito). Larry é um cantor de um único sucesso, a exemplo do Eagles e seu Hotel California, e começa a história achando que vai deslanchar… isso, é claro, até o Capitão Viajante surgir. A partir daí, ele esquece sua vida de sucessos e tenta se reerguer da melhor forma possível.

Harold Lauder é de longe meu segundo vilão favorito, só perdendo para Flagg, obviamente. O típico rapaz medroso, espinhento e nojento que adoraria espiar Fran trocando de roupa. Harold é o personagem que mais evolui durante o livro inteiro, mas, apesar disso, nunca perde sua insegurança; marca registrada do rapaz. Harold é apaixonado por Fran, que ama Stu. Logo, Harold odeia Stu. O ódio culmina em sua aliança com o Homem Escuro. Apesar de estar sob influência de Flagg, Harold faz questão de mostrar que seus atos são feitos com total racionalidade e espontânea vontade, principalmente quando explode o pobre Nick Andros dentro de sua casa. Perto de morrer, Harold se rende a um breve momento de redenção, mesmo sem se iludir que alguém vá perdoá-lo por seus atos. Para mim, é o momento que dá mais dó do personagem, e nos deixa imaginando como ele teria se saído em Boulder se não tivesse resolvido se tornar um vilão.

Lata de Lixo é o próximo. Ele não é exatamente um vilão, porque não está nem aí para quem ganha a guerra; ele simplesmente gosta de queimar coisas. Em outras palavras, ele é um piromaníaco. Lixo constantemente se alterna entre o cômico e o trágico. Imagino que não devem ter sido poucas as pessoas que deram uma gargalhada quando ele trouxe a bomba atômica para Flagg no fim do livro, achando que estava fazendo um bem para seu salvador. Apesar de se contar brevemente o passado de Lixo, ele continua um personagem oco e que não causa o menor sentimento nas pessoas, deixando claro que seu único propósito é… queimar.

Finalmente, falamos de Randall Flagg. Muitos leitores já o conhecem, seja de Os Olhos do Dragão, ou d’A Torre Negra, o velho Randy Flagg aparece para causar mais estrago. Um ponto interessante é que nem o próprio Flagg parece entender a totalidade de seu poder, o que pode deixar os leitores confusos. De qualquer forma, ele é aquele típico ditador frio que usa maquiagem para parecer uma pessoa legal. Ele vai a Las Vegas e reúne o máximo de gente que consegue. Nem todas as pessoas são más, apenas medrosas o bastante para não ousarem negá-lo. O visual de Flagg é o mais bizarro possível (e perfeitamente retratado na minissérie de 1994): o cara usa jaqueta, calça jeans e botas de vaqueiro. Gosta de levitar para meditar e é chegado num fetiche por mulheres de cabelo branco. Além disso, ele é um grande estrategista e, de certa forma, nos deixa surpresos por, no fim das contas, perder a guerra (ou não, afinal a roda continua a girar). Flagg é um show à parte de duas caras. Pode ser tão cavalheiro, carismático, classudo, quanto cínico, irritado e violento. Não à toa, é considerado por muitos o maior vilão criado por King.

Como já perceberam, a análise está extensa. Eu não falei de Lloyd, não falei de Rita, Glen, Nadine, O Garoto, Julie, do menino Leo, de tantos outros personagens que até são interessantes, mas não exageradamente marcantes. Também não falei das situações. O ciclone da qual Tom e Nick escapam enquanto seguem para onde está Mãe Abagail; a sinistra e bem escrita passagem de Larry e Rita pelo túnel escuro que liga Nova York a Nova Jersey; a estadia nada divertida de Lloyd na penitenciária de Phoenix. Enfim, é muita coisa para falar, e essa resenha não cobre nem 10% da experiência de ler A Dança da Morte. O livro possui humor, drama, horror, aventura, ação… tem tudo. É uma obra obrigatória, não só para os fãs de King, como para os que apreciam livros longos que passem uma sensação de se estar numa jornada épica.

Quanto ao final, achei ele praticamente perfeito, exceto por Stu Redman sobreviver. A vida continua, mas nem todos os bebês sobreviverão ao Capitão Viajante, que continua por aí (ou pelo menos até todos serem concebidos por pais imunes). Gostei do destino da maioria dos personagens, mas não gostei da morte de alguns (como Larry e Nick). Achei interessante que Flagg não foi destruído e começou a refazer seu exército através de uma tribo em algum esquecido lugar do mundo. É uma história realmente marcante, cheia de personagens adoráveis e detestáveis, mas isso não se sobrepõe à obra inteira. Ler A Dança da Morte não foi apenas um hobby, ou algo para preencher o tempo, foi uma grande experiência.

Artigo originalmente escrito em: 23/04/2011